Naquele entardecer divino, ao Leste do Éden, sem mais o que fazer, estava Adão a cofiar placidamente seus pelos pubianos, mirolhando Eva trocar pela terceira vez naquele dia a mesma folha de parreira, quando Caim chegou aos prantos e aos gritos de uma dor que parecia lancinante:
- Matei Abel! Matei Abel!...
- Bandido, mataste teu irmão?! - bradou furioso o seu pai.
- Ó tu, malfeitor! Mataste teu único irmão! - choramingou Eva.
E, para que a história oficial da vinda da primeira grande família para a Terra não sofresse solução de continuidade, Caim se explicou, antes de dar no pé e ninguém, nunca mais ter notícias dele:
- Mãe, mãezinha; pai, paizinho... Olhaqui, a gente tava brincando de luta. De Batman e Robin. Eu cai por baixo de Abel. Tentei me livrar, mas ele... Ele... Ele me comeu, pô!
Adão olhou para Eva, com cara de quem já tinha avisado que aquele tipo de brincadeira sempre acaba em rompimento de, rompímento de, de... Bolas, a vida é um buraco! Desligou-se daquela mazanza e virou-se para excomungar o filho que sobrou:
- Viado! Robin!
- Viado, um cacete, meu pai. Peguei uma pedra e esborrachei a cabeça dele!
E mais não disse. Com uma lágrima de dor e outra de saudade, saiu em desabalada carreira rumo a lugar nenhum. Nunca mais viu os pais. E nem sequer, viu o sorriso luxurioso, cheio de raiva e de orgulho que se abria na cara de Adão.
MORAL DA HISTÓRIA - Caim pode ter sido o primeiro viado, mas não o primeiro malfeitor. Adão já era bem pior que ele. Começou traçando a própria irmã. Foi o primeiro Serial-Malefactor da História Oficial da Humanidade: passava o dia inteiro fazendo malfeito com a incansável e dadivosa Eva.
RODAPÉ - Milhares e milhares de anos depois Caim fixou residência no princípio do Cone Sul do Mundo. Virou garanhão daquelas redondezas, mas quando isso se deu, já era um pouco tarde.
O Garanhão de Pelotas
MINHA CIDADE É UM CÉU SEMPRE AZUL... UMA PÁTRIA PEQUENA QUE TENHO NO SUL.
20/04/2012
11/04/2012
Festa de Formatura
Tamerda! Eu também sou avô! Sou gente, apesar de Garanhão de Pelotas! Gente que sente. Por exemplo, quer saber? Meu neto, primeiro e único, se forma na segunda-feira, na UnB, em Brasília; diploma-se com louvor em Publicidade e Propaganda. Publicitário, enfim, que nem seu avô!
E então, no domingo vai ter festa aqui no nosso solar. Churrasco de carnes brancas e vermelhas; mal-passadas e ao ponto; de costela gorda e picanha maturada; de beliscatessens a chimarrão e muita, muita caipirinha, acompanhada de "cacetinhos" recheados de cebola, tomate e linguiça de porco e de rês cortada a facão.
E aí, nessas vésperas, eu telefono então para um velho e bom amigo de bancos escolares, hoje médico dos melhores - daqueles que já não fazem mais - e lhe conto a boa nova: meu neto vai sair ao vô, levará a vida numa boa, comendo de tudo e comendo todas; criando slogans e lançando marcas de fazer sucesso e ganhando as graças de vendedores e compradores, de homens e mulheres e de todos e tudo mais, comendo cada um, muito juntos num swing sociocomercial sem tamanho e sem nenhum prazo de validade.
Foi quando ele, o meu amigão de infância, me disse, com a alegria comedida e saudável dos bons médicos que, claro, estaria na festa, com muito prazer, muita birita, comes e bebes e coisa e tal, comme d'habitude. Mas... Mas que eu esperasse só um pouquinho que ele logo me confirmaria a vinda ao ágape, ao regabofe, à churrascada, pô! Ou não.
E mais não disse, porque mais não lhe perguntei. Dois dias se foram. E hoje, sexta, antevéspera da festa, ele me liga. E eu vou ao celular. Ele diz que não. Que não viria à festa de formatura do meu neto.
- Fala, guri medonho... - disse-lhe eu.- Garanha, escutaqui... Talvez eu não possa passar por aí no domingo...
- Tá bom, qual é a desculpa da vez?
- Nada demais. É que, na segunda eu vou me operar.
- Quiéisso Guri, te deu nó nas tripas, água no joelho, assim de repente?
- Não. Besterinha: um câncer na próstata.
- Te explica, melhor, cara. Eu não entendendo nada de proctoculogia...
- Nem precisa. Deixa que eu te diga: apareceu um câncer nas reberbelas das interlas do meu esfíncter.
- Que bosta, cara. Isso lá é jeito de escapar de um domingo? A carne é boa, a alma é fraca, a bebida é fortíssima...
- Sei, sei, mas não é desculpa, não. Tô mesmo com câncer na próstata. Era pra ter me operado ontem, mas meu médico foi pros Estados Unidos e só volta manhã.
- Estados Unidos... Nessa hora?!?
- Fica frio, cara. O real tá mais forte que o dólar lá fora. A hora é esta...
- Uma porra que a hora é esta!.. Meu neto tá se formando. A banda de rock bem-comportado dele vai até tocar aqui no solar, neste domingo... E outra coisa, carinha, há 30 anos que eu faço massagem entre o escroto e as pregas nos meus banhos diários... E não tenho isso. E olha que eu não sou médico, amigão.
- Pois eu não fiz. Tô com o bicho-da-seda no buzafan.
- Tá, guri. Tá. ... Deixa eu te dizer uma coisa. Nem sei se quero mais que você venha ao churrasco aqui em casa, ou que o seu médico americanizado marque a cirurgia pra segunda-feira...
- Você decide... Mas brigado pela dúvida.
- Tá. Quero que você se opere na segunda, de manhã. À tarde estarei aí, no hospital. Vou pra marcar o churrasco de domingo da outra semana. Vamos comemorar os 10 ou 15% de temporada por esse mundão que nos espera.
- Combinado. Segunda-feira, à tarde, te aguardo por lá. No outro domingo, vamos encher o cu de carne e celebrar a vida bebendo estrelas com dom Pérrigón...
- Champanhe uma porra! O Chivas Reagal é por minha conta.
E, porque hoje é sábado e há a perspectiva de domingo, desliguei o celular. Vou ao churrasco de domingo, ao hospital na tarde de segunda-feira e à festa de entrega do diploma a meu neto nessa mesma segunda e, no domingo que vem, com o meu amigo, vou celebrar a vida de verdade.
MORAL DA HISTÓRIA - Câncer é uma coisa que contagia nessa República dos Calamares. Pega até os nossos amigos de infância. Mas não mata a identificação desinteressada e sincera de dois amigos que atravessaram a vida como se a prórpía vida soubesse envelhecer.
E então, no domingo vai ter festa aqui no nosso solar. Churrasco de carnes brancas e vermelhas; mal-passadas e ao ponto; de costela gorda e picanha maturada; de beliscatessens a chimarrão e muita, muita caipirinha, acompanhada de "cacetinhos" recheados de cebola, tomate e linguiça de porco e de rês cortada a facão.
E aí, nessas vésperas, eu telefono então para um velho e bom amigo de bancos escolares, hoje médico dos melhores - daqueles que já não fazem mais - e lhe conto a boa nova: meu neto vai sair ao vô, levará a vida numa boa, comendo de tudo e comendo todas; criando slogans e lançando marcas de fazer sucesso e ganhando as graças de vendedores e compradores, de homens e mulheres e de todos e tudo mais, comendo cada um, muito juntos num swing sociocomercial sem tamanho e sem nenhum prazo de validade.
Foi quando ele, o meu amigão de infância, me disse, com a alegria comedida e saudável dos bons médicos que, claro, estaria na festa, com muito prazer, muita birita, comes e bebes e coisa e tal, comme d'habitude. Mas... Mas que eu esperasse só um pouquinho que ele logo me confirmaria a vinda ao ágape, ao regabofe, à churrascada, pô! Ou não.
E mais não disse, porque mais não lhe perguntei. Dois dias se foram. E hoje, sexta, antevéspera da festa, ele me liga. E eu vou ao celular. Ele diz que não. Que não viria à festa de formatura do meu neto.
- Fala, guri medonho... - disse-lhe eu.- Garanha, escutaqui... Talvez eu não possa passar por aí no domingo...
- Tá bom, qual é a desculpa da vez?
- Nada demais. É que, na segunda eu vou me operar.
- Quiéisso Guri, te deu nó nas tripas, água no joelho, assim de repente?
- Não. Besterinha: um câncer na próstata.
- Te explica, melhor, cara. Eu não entendendo nada de proctoculogia...
- Nem precisa. Deixa que eu te diga: apareceu um câncer nas reberbelas das interlas do meu esfíncter.
- Que bosta, cara. Isso lá é jeito de escapar de um domingo? A carne é boa, a alma é fraca, a bebida é fortíssima...
- Sei, sei, mas não é desculpa, não. Tô mesmo com câncer na próstata. Era pra ter me operado ontem, mas meu médico foi pros Estados Unidos e só volta manhã.
- Estados Unidos... Nessa hora?!?
- Fica frio, cara. O real tá mais forte que o dólar lá fora. A hora é esta...
- Uma porra que a hora é esta!.. Meu neto tá se formando. A banda de rock bem-comportado dele vai até tocar aqui no solar, neste domingo... E outra coisa, carinha, há 30 anos que eu faço massagem entre o escroto e as pregas nos meus banhos diários... E não tenho isso. E olha que eu não sou médico, amigão.
- Pois eu não fiz. Tô com o bicho-da-seda no buzafan.
- Tá, guri. Tá. ... Deixa eu te dizer uma coisa. Nem sei se quero mais que você venha ao churrasco aqui em casa, ou que o seu médico americanizado marque a cirurgia pra segunda-feira...
- Você decide... Mas brigado pela dúvida.
- Tá. Quero que você se opere na segunda, de manhã. À tarde estarei aí, no hospital. Vou pra marcar o churrasco de domingo da outra semana. Vamos comemorar os 10 ou 15% de temporada por esse mundão que nos espera.
- Combinado. Segunda-feira, à tarde, te aguardo por lá. No outro domingo, vamos encher o cu de carne e celebrar a vida bebendo estrelas com dom Pérrigón...
- Champanhe uma porra! O Chivas Reagal é por minha conta.
E, porque hoje é sábado e há a perspectiva de domingo, desliguei o celular. Vou ao churrasco de domingo, ao hospital na tarde de segunda-feira e à festa de entrega do diploma a meu neto nessa mesma segunda e, no domingo que vem, com o meu amigo, vou celebrar a vida de verdade.
MORAL DA HISTÓRIA - Câncer é uma coisa que contagia nessa República dos Calamares. Pega até os nossos amigos de infância. Mas não mata a identificação desinteressada e sincera de dois amigos que atravessaram a vida como se a prórpía vida soubesse envelhecer.
30/03/2012
O desvio do pedágio
Por um bom tempo, transportei o progresso pelo Brasil afora. Foi meu ciclo de caminhoneiro independente. Ainda sinto saudade da sensação de olhar de cima o chão dessa terra. Da boléia de um Volvo de grande tonelagem, o buraco é mais embaixo. E o horizonte não fica assim tão colado ao céu e à estrada.
Há façanhas incontáveis para contar. Mais que incontáveis, impublicáveis. Por isso não as conto. Não conto todas. Uma lá que outra, até me animo.
E para não ir mais longe - que o Diesel está mais caro que o tempo, vou tirar da minha carga pesada, apenas um singelo encontro que tive, num trevo estratégico no interior do Paraná, bem à margem daquilo que se conhece como a "rota do contrabando".
Aquele lugar, ermo, despovoado de moradores e viajantes, é um desvio alternativo para quem gosta de escapar dos pedágios. Muita gente já descobriu isso. E os guardas rodoviários, também.
Pois, naquele dia dei de cara com uma dupla de patrulheiros. Simpáticos, fala macia, gestos firmes e controlados, eles me fizeram parar:
- Bom dia, tá boa a viagem?
- Até aqui, tudo bem, meu mestre.
- Seus documentos...
- Pois não.
- Tudo em ordem. Mas, por favor, agora acione o freio traseiro... Isso, assim mesmo.
- OK. Tudo bem?
- Infelizmente, não. A sua lanterna esquerda não tá funcionando...
Nem contestei. Eu não teria como provar o contrário. Impossível para um motorista apertar no freio e verificar se o pisca-pisca está respondendo. Vi que a dupla tinha lido meu pensamento. Sua fala trazia um sorriso tão frio quanto simpático:
- Vamos ter que multá-lo.
- Tá bom, quanto é?
- Ora deixe disso. Essas coisas acontecem. Vá assim mesmo até à primeira oficina e mande arrumar isso aí.
- Muito obrigado, seu guarda...
- De nada, mas só pra gente fortalecer a amizade deixe aí uma coisinha qualquer para o lanche ali do meu parceiro...
Cara pra fora da janela da cabine, meti a mão no porta-luva, puxei uma nota solitária de R$ 20 e coloquei-a no bolso da camisa cáqui do patrulheiro:
- Tá bem assim?
O propineiro fazendo-se de simpático, me retrucou em tom de meia aprovação:
- Amigo, se você acha que tá bom assim... Então tá.
- Não, seu guarda, eu não acho que tá bom assim, não.
E enfiei dois dedos rapidos no seu bolso e retirei de lá as minhas vinte pratas. Nem lhe dei tempo para mais nada. Fiz o câmbio, engatei a primeira marcha e fui saíndo devagarinho:
- Brigado, amigo. Tenho ainda muito chão pela frente.
Estupefato ele se desarmou. E me deixou ir em paz. Parei na primeira oficina. Pedi para o mecânico olhar minha sinaleira traseira. Pisei no freio, enquanto o atendente verificava o sinal:
- Tudo em ordem, parceiro. Tá funcionando legal.
- Brigadão, amigo. Vou adiante que ainda tenho muito chão pela frente.
RODAPÉ - Na vida de caminhoneiro nem sempre você é atropelado por um veículo. Há sempre o risco de não conseguir desviar de um entulho de propina, de pedágio, ou coisa parecida.
Há façanhas incontáveis para contar. Mais que incontáveis, impublicáveis. Por isso não as conto. Não conto todas. Uma lá que outra, até me animo.
E para não ir mais longe - que o Diesel está mais caro que o tempo, vou tirar da minha carga pesada, apenas um singelo encontro que tive, num trevo estratégico no interior do Paraná, bem à margem daquilo que se conhece como a "rota do contrabando".
Aquele lugar, ermo, despovoado de moradores e viajantes, é um desvio alternativo para quem gosta de escapar dos pedágios. Muita gente já descobriu isso. E os guardas rodoviários, também.
Pois, naquele dia dei de cara com uma dupla de patrulheiros. Simpáticos, fala macia, gestos firmes e controlados, eles me fizeram parar:
- Bom dia, tá boa a viagem?
- Até aqui, tudo bem, meu mestre.
- Seus documentos...
- Pois não.
- Tudo em ordem. Mas, por favor, agora acione o freio traseiro... Isso, assim mesmo.
- OK. Tudo bem?
- Infelizmente, não. A sua lanterna esquerda não tá funcionando...
Nem contestei. Eu não teria como provar o contrário. Impossível para um motorista apertar no freio e verificar se o pisca-pisca está respondendo. Vi que a dupla tinha lido meu pensamento. Sua fala trazia um sorriso tão frio quanto simpático:
- Vamos ter que multá-lo.
- Tá bom, quanto é?
- Ora deixe disso. Essas coisas acontecem. Vá assim mesmo até à primeira oficina e mande arrumar isso aí.
- Muito obrigado, seu guarda...
- De nada, mas só pra gente fortalecer a amizade deixe aí uma coisinha qualquer para o lanche ali do meu parceiro...
Cara pra fora da janela da cabine, meti a mão no porta-luva, puxei uma nota solitária de R$ 20 e coloquei-a no bolso da camisa cáqui do patrulheiro:
- Tá bem assim?
O propineiro fazendo-se de simpático, me retrucou em tom de meia aprovação:
- Amigo, se você acha que tá bom assim... Então tá.
- Não, seu guarda, eu não acho que tá bom assim, não.
E enfiei dois dedos rapidos no seu bolso e retirei de lá as minhas vinte pratas. Nem lhe dei tempo para mais nada. Fiz o câmbio, engatei a primeira marcha e fui saíndo devagarinho:
- Brigado, amigo. Tenho ainda muito chão pela frente.
Estupefato ele se desarmou. E me deixou ir em paz. Parei na primeira oficina. Pedi para o mecânico olhar minha sinaleira traseira. Pisei no freio, enquanto o atendente verificava o sinal:
- Tudo em ordem, parceiro. Tá funcionando legal.
- Brigadão, amigo. Vou adiante que ainda tenho muito chão pela frente.
RODAPÉ - Na vida de caminhoneiro nem sempre você é atropelado por um veículo. Há sempre o risco de não conseguir desviar de um entulho de propina, de pedágio, ou coisa parecida.
03/03/2012
A Canja
Então, na minha mais dolente pele do Garanhão de Pelotas, eu tinha meu sono reparador dos domingos passados em "minha pátria pequena que tenho no Sul" afrontado pontual e torturantemente, às seis horas da madrugada, pelo badalar insistente e penetrante dos sinos da catedral.
Que diabo, essas coisas feitas em nome de Deus! Sempre aos domingos. Logo às seis da manhã. Aqueles carrilhões desabavam domingueiramente sobre o meu cérebro e tonitruantes atingiam meus nervos. Inclusive aquele que entumecia ao sabor de belos e eróticos sonhos, no mais tradicional tesão de xixi de todos os frágeis e suscetíveis seres humanos. Bolas, o Garanhão de Pelotas também é gente!
E, como todo guerreiro precisa descansar. Minha terra, longe do mundo, era o meu paraíso dominical para relaxar e gozar. E aquele sino! E aqueles badalos! E eu nem sequer queria saber por quem os sinos dobravam, cacete!
Naquele domingo, o som abusivo e retumbante não deu treguas ao merecido descanso de mais uma semana de reportagens factuais e aflitas pelo conflito na Síria que reparti com dois jornalistas franceses que trabalhavam em Homs.
Com muito esforço sobrehumano, sem nenhum aceno dos itamaratecas de lá ou de cá, consegui deixar o país e acompanhei - sem um arranhão sequer - os dois companheiros de batalha levando-os para o Líbano. Porra! Sem um arranhão sequer, porque jornalista tem mais é que fazer notícia; jamais tem que ser notícia!
De lá, William Daniels e Edith Bouvier, ferida em um ataque das forças de segurança que matou dois jornalistas, foram enviados para a região de Bekaa Valley, norte do Líbano, e retornaram à França. Eu nem cheguei a vir para o Brasil; vim direto para Pelotas que, eu já disse, é a "minha pátria pequena".
Pois então sucede que os sinos rimbombantes da catedral não me deixaram dormir sossegado. Foi a gota d'água. Aqueles padres não tinham um pingo de verdadeira noção comunitária. Acordei para sempre.
Decidi que meus domingos, a partir de então seriam relaxados e gozados na zona rural. De Pelotas é claro. Naquela já distante segunda-feira, atrasando meu retorno ao Oriente Médio, tratei de comprar uma chácara na Cascata - uma região linda de se viver!
Foi vapt-vupt. Comprei logo uma, com tudo que tinha direito: mansão, casa de capataz, tambo para ordenhar seis vacas, piscina... Veio até caseiro com família e filharada no negócio.
Viajei logo para o outro lado do mundo. Fiquei por lá duas exaustivas semanas. Cobri cinco batalhas, dois atentados a embaixadas americanas e francesas respectivamente e, afinal, me concedi outro final de semana, em minha nova casa rural.
Naquele velho sábado à noite cheguei exausto. Joguei tudo para um canto da enorme sala com cozinha americana e lareira, fui para a banheira Jacuzzi que já estava devidamente instalada como sugeri ao corretor do imóvel sob os olhares de minhas secretárias e me dediquei a relaxar e gozar, com minhas três namoradinhas, ex-guerrilheiras urbanas e grandes batalhadoras de minhas múltiplas alcovas.
Peguei no sono por volta das três e meia da madrugada. Grande madrugada. Sabe como é, quando a saudade bate, é fogo. Com ex-combatentes, nem se fala. E então e, até que enfim, joguei-as para os lados e me entreguei aos aconchegantes braços de Morfeu.
Às cinco da manhã meu cérebro explodiu: que tortura aquele barulho. Que inferno! Acordei com os sons tonitruantes e repetitivos que me pinicavam a alma e acabavam com o sonho. E não era coisa dos deuses... Saí pela manhã ainda noite como um sonâmbulo à cata de solução.
Ao meio-dia daquele almoço de domingo naquela paradisíaca chácara na Cascata, eu garanti para sempre os meus sonos reparadores de sábado em meu torrão natal. Tomei dois pratos fundos da substancial canja feita com o galo da madrugada.
Quando peguei meu helicóptero, rumo a Porto Alegre, de onde partiria para Cumbica rumo a Londres, eu já sabia por quem os sinos dobram.
RODAPÉ - Quando as forças do universo se juntam para atormentar seus melhores sonhos, não interessa por quem os sinos dobram... Agora, se o galo cantar, coloque-o na panela e faça com ele o que ele faz com as galinhas: coma-o!
Que diabo, essas coisas feitas em nome de Deus! Sempre aos domingos. Logo às seis da manhã. Aqueles carrilhões desabavam domingueiramente sobre o meu cérebro e tonitruantes atingiam meus nervos. Inclusive aquele que entumecia ao sabor de belos e eróticos sonhos, no mais tradicional tesão de xixi de todos os frágeis e suscetíveis seres humanos. Bolas, o Garanhão de Pelotas também é gente!
E, como todo guerreiro precisa descansar. Minha terra, longe do mundo, era o meu paraíso dominical para relaxar e gozar. E aquele sino! E aqueles badalos! E eu nem sequer queria saber por quem os sinos dobravam, cacete!
Naquele domingo, o som abusivo e retumbante não deu treguas ao merecido descanso de mais uma semana de reportagens factuais e aflitas pelo conflito na Síria que reparti com dois jornalistas franceses que trabalhavam em Homs.
Com muito esforço sobrehumano, sem nenhum aceno dos itamaratecas de lá ou de cá, consegui deixar o país e acompanhei - sem um arranhão sequer - os dois companheiros de batalha levando-os para o Líbano. Porra! Sem um arranhão sequer, porque jornalista tem mais é que fazer notícia; jamais tem que ser notícia!
De lá, William Daniels e Edith Bouvier, ferida em um ataque das forças de segurança que matou dois jornalistas, foram enviados para a região de Bekaa Valley, norte do Líbano, e retornaram à França. Eu nem cheguei a vir para o Brasil; vim direto para Pelotas que, eu já disse, é a "minha pátria pequena".
Pois então sucede que os sinos rimbombantes da catedral não me deixaram dormir sossegado. Foi a gota d'água. Aqueles padres não tinham um pingo de verdadeira noção comunitária. Acordei para sempre.
Decidi que meus domingos, a partir de então seriam relaxados e gozados na zona rural. De Pelotas é claro. Naquela já distante segunda-feira, atrasando meu retorno ao Oriente Médio, tratei de comprar uma chácara na Cascata - uma região linda de se viver!
Foi vapt-vupt. Comprei logo uma, com tudo que tinha direito: mansão, casa de capataz, tambo para ordenhar seis vacas, piscina... Veio até caseiro com família e filharada no negócio.
Viajei logo para o outro lado do mundo. Fiquei por lá duas exaustivas semanas. Cobri cinco batalhas, dois atentados a embaixadas americanas e francesas respectivamente e, afinal, me concedi outro final de semana, em minha nova casa rural.
Naquele velho sábado à noite cheguei exausto. Joguei tudo para um canto da enorme sala com cozinha americana e lareira, fui para a banheira Jacuzzi que já estava devidamente instalada como sugeri ao corretor do imóvel sob os olhares de minhas secretárias e me dediquei a relaxar e gozar, com minhas três namoradinhas, ex-guerrilheiras urbanas e grandes batalhadoras de minhas múltiplas alcovas.
Peguei no sono por volta das três e meia da madrugada. Grande madrugada. Sabe como é, quando a saudade bate, é fogo. Com ex-combatentes, nem se fala. E então e, até que enfim, joguei-as para os lados e me entreguei aos aconchegantes braços de Morfeu.
Às cinco da manhã meu cérebro explodiu: que tortura aquele barulho. Que inferno! Acordei com os sons tonitruantes e repetitivos que me pinicavam a alma e acabavam com o sonho. E não era coisa dos deuses... Saí pela manhã ainda noite como um sonâmbulo à cata de solução.
Ao meio-dia daquele almoço de domingo naquela paradisíaca chácara na Cascata, eu garanti para sempre os meus sonos reparadores de sábado em meu torrão natal. Tomei dois pratos fundos da substancial canja feita com o galo da madrugada.
Quando peguei meu helicóptero, rumo a Porto Alegre, de onde partiria para Cumbica rumo a Londres, eu já sabia por quem os sinos dobram.
RODAPÉ - Quando as forças do universo se juntam para atormentar seus melhores sonhos, não interessa por quem os sinos dobram... Agora, se o galo cantar, coloque-o na panela e faça com ele o que ele faz com as galinhas: coma-o!
27/02/2012
Baú do Jirau
Programa do Governo
(Esta saiu do Baú do Jirau - uma das alas do blog Sanatório da Notícia)
(Esta saiu do Baú do Jirau - uma das alas do blog Sanatório da Notícia)
É o componente mais importante de um ritual que começa para mim invariavelmente com uma rápida navegada pelos jornais virtuais, "para colher a pauta do dia" extraída sempre da mídia pelo meu chefe no Ministério, cujo nome nem m passa pela cabeça, mas onde eu e ele ocupamos dois bons salários para não fazer nada.
É uma azáfama de inutilidade que se repete há bons nove anos, quase uma década, graças à minha carteirinha do PT que substituí por diplomas, currículos e aptidões para qualquer coisa, ou tipo de atividade.
O que não me passa pela cabeça - nem pense nisso! - não é o nome do meu chefe, isso eu tenho obrigação de saber; o que não me passa pela cabeça é o nome do Ministério.
Nunca ninguém me informou sobre esse pequeno detalhe e nem eu mesmo jamais me dei ao desplante de tamanha e tão impertinente curiosidade.
Depois da breve navegação, já de terno, colarinho branco com uma suspeita e rósea mancha de batom no colarinho, sinal da gandaia de sábado num já costumeiro coquetel para festejar a ascensão ou a queda de mais um ministro - eu nem me lembro bem, já que vodca me dá lapsos de memória - aprecatei-me para escutar o plano de poder semanal da momesca criatura, Dilma - A Primeira e Única.
Sim, plano. É que programa de governo mesmo, Dilma tem esse aí, de rádio e olhe lá!
Sorvendo o café que me foi posto em pratos limpos pela governanta do meu apartamento funcional na Asa Norte, aprumoei-me na confortável cadeira de espaldar alto, ao lado do aparelho radiotransmissor e inteirei-me do que deveria mandar meus subordinados mandarem seus inferiores fazer ao correr da semana.
Fiquei sabendo de tudo. Dilma falou, tá falado: O PAC desempacou; o Minha Casa Minha Vida é todo nosso; Luz para Todos já chegou e tem mais; O Brasil Sem Miséria existe e taí pra quem quer ver a vida com bons olhos; sim, Zé Dirceu e seus mensaleiros continuam soltos; Dilma hexa-campeã em perda de ministros caminha célere para a sétima, a oitava, a 15ª varredura de uma dessas heranças benditas que Lula lhe deixou.
Bom, pelo menos, o nome do meu querido ministro, o José da Silva, - todo governista terceirizado é José - não foi lembrado... Ainda.
Ah, sim, a presidenta está "consternada" com o incêndio na base brasileira da Antártica. Prometeu, inclusive, que vai mobilizar a Brahma e a Skol para retomar imediatamente as pesquisas. Não se pode desperdiçar gelo assim desse jeito... Água é vida!
Epa! Taí um bom título de projeto a ser lançado e terceirizado pelo "meu" Ministério. Projeto Água é Vida! Nunca antes na história desse país alguém pensou nisso. Pelo menos com esse nome - matutei, eufórico e cheio de pompa e circunstância, como nunca antes na minha história como Garanhão de Pelotas.
É por isso que eu não perco um "Café com a Presidenta". Sempre tiro alguma coisa que preste. Ela é bárbara! Tártara! Lança ideias e projetos assim ao léu, como se não estivesse dizendo e nem querendo nada.
E então, devidamente abastecido de notificações oficiais, Zé levantei-me, peguei os dois celulares, o cartão de crédito corporativo, assumi o comando de meu carro seminovo blindado e de chapa branca que por direito me cabe o uso e o fruto, ainda que modesto ocupante de um cargo em comissão de baixo es/calão dessa República dos Calamares, como são todos os chefes de gabinete ministerial. Acionei o controle remoto.
Pronto, o portão instransponível do prédio público que lm assegura a integridade física e moral de cada dia mal passado e cada noite bem dormida, abriu-se como uma porta de Sésamo para uma nova semana de sol radiante e de missões a cumprir.
Olhei meu Pateck Phillip (o rapa na Feira dos Importados sempre deixa um rescaldo para os aloprados mais atentos) que me ornava o pulso:
- Noossa! Quase 10 horas da manhã! Hoje a nossa presidenta se alongou demais no seu breakfast. Vou me atrasar para a reunião das 11 - pensei, sacudi a cabeça e saí cantando pneu pelo trânsito já descongestionado de Brasília.
Cheguei no meu gabinete. A secretária me informou que a reunião estava transferida para amanhã; bolas, o chefe estava gripado e acabara de cancelar todos os compromissos de hoje.
Cheio de mim, pela vacância eventual da chefia, tomeio os devidos ares de administrador-geral. Convocquei um rápido briefing com os 16 servidores terceirizados numa escala abaixo da minha e determinei, peremptoriamente, que ninguém tentasse criar qualquer novidade na rotina ministerial. Ninguém inventa nada, pô!
Todos deveriam esperar que o chefe se curasse da influenza com ares de pneumonia, ou coisa parecida. Que ficassem tranquilos, já que os primeiros diagnósticos do mal do chefe não tinham nada a ver com a epidemia de tumores incuráveis que grassa pela Esplanada e assola o nosso saudável governo.
E a segunda-feira correu normal. Às 11h30 saí para almoçar. Ás 15h eu já telefonava para os companheiros de terceirização combinando o happy hour de sempre, naquela mesma mesa, daquele mesmo bar-restaurante, onde a gente resolve os problemas da América Latina, da ONU e do mundo.
Do Brasil, claro que não se fala. Ninguém mais patriota que nós. Talvez, só o que desfralda essa bandeira como nome próprio. O Brasil para nós, não tem problema. Isso, a gente vai dizer amanhã, com todas as letras do novo acordo ortográfico para a mídia persecutória. A gente faz saber; saber fazer é besteira.
MORAL DA HISTÓRIA - Privatização, teu nome é terceirização.
25/02/2012
Pesadelo Classe Média Nacional
Acordei de uma noite em que era sócio do conglomerado Dirceu, Calocci & Consultores Republicanos Ltda. e, ainda sem despertar de verdade, tirei o pijama de R$ 38,90 que comprei outro dia no baratilho de um rescaldo das Lojas Pernambucanas por R$ 27,99 e entrei no box para tomar uma ducha num Corona, recém adquirido por R$ 32,30 em seis vezes no cartão, na Oba-Oba Miudezas Elétricas.
Levei cinco minutos exatos - que depois disso o medidor de energia dispara - enxuguei-me com uma toalha que surrupiei depois de um pernoite bem empernado de R$ 45 no Hotel Damasco Inn, ali nas bordas da Marginal do Rio Sujeira e escovei a terceira dentição com um resto do primeiro tubo de um conjunto de três dentifrícios Sorriso Branco e Franco que me custara exatos R$ 3,97 na promoção do dia nas Casas Bahia.
Cofiei os pelos pubianos - que um Garanhão tem que ter esses gestos - e fiz a barba com a quinta geração de uma lâmina amarela de um pacote de 10 unidades, adquirido no Carrefour por módicos R$ 6,35.
Matei no bar da esquina um café com leite, pão-dormido e manteiga, por suaves R$ 4,50, peguei meu possante carrinho Ford-KA completo, com um saldo pendurado de 52 prestações de R$ 622 e fui à luta.
Cheguei no escritório, uma sala de 24 metros quadrados e um vaso sanitário que me custam um aluguel de R$ 1.250, fora o condomínio e IPTU, água, luz e telefone e me prendi a fazer negócios pelo computador, um Intelbrás de 2009 financiado em 36 meses de R$ 33,50 que, felizmente, estará pago, morto e sepultado, no mês que vem.
Ao meio-dia, bateu agrura no meu estômago sensível e fui ao almoço-executivo no restaurante ali do shopping Mar de Fora. Paguei R$ 17 por quilo na balança, uma pechincha já que o custo real era de R$ 28,50 por cabeça, com direito a peixe tipo bacalhau já deslascado e tudo mais. Batata é que não faltava.
Dali fui ao médico oftalmologista. Um luxo, posto que não tenho plano de saúde, nem ligações de qualquer grau com o Sírio-Libanês e ainda acho que o SUS é para metalúrgicos de segunda e não para grandes miniempresários como eu. O prazer de dever para o Fisco só é comparável àquelas dores de dente insuportáveis.
Paguei na bucha, com cartão de crédito estourado - que vai me custar nada menos de 240% de juro por ano, até que o coloque em dia. Lá se foram R$ 200 por uma consulta que, em novembro do ano passado me custava R$ 150.
Saí enxergando a mesma coisa. Até que tenha grana para mandar aviar os óculos que já não cabem na minha velha armação redonda. A armação de R$ 190 está agora por R$ 287 à vista, ou R$ 320 no cartão, em três vezes. As lentes, Varilux ou coisa parecida, podem ser de R$ 95 para enxergar direitinho, ou então de R$ 480 para perceber o que me aparecer pela frente.
Nem voltei para o trabalho. Estava exausto. Na verdade, exaurido. Antes de chegar em casa, passei no supermercado. Sou viciado em sonhos de consumo. Namorei as prateleiras de vinho. Achei um Marquês de Riscal, meu cabernet espanhol preferido, em oferta: R$ 184 a garrafa. Peguei um Marquês de La Colina, por R$ 8,90.
Comprei pão integral, de barbada, por R$ 5,99 quando o seu valor verdadeiro seria coisa de R$ 7,20 mais ou menos. Aduzi às compras queijo-prato numa oferta de R$ 24 por quilo, quando o preço atual seria de, pelo menos, R$ 32; juntei ainda presunto gordo e sadio por inexplicáveis R$ 19 o quilo, ao invés dos tradicionais R$ 27. Queijo e presunto, aglomerados, resultaram-me num pacote de 200 gramas de sabor inigualável.
Ah sim, paguei R$ 4,80 num saco de um quilo de café Ouro Bendito que, normalmente, custaria R$ 8,90. Só vi que a validade do produto ia até apenas até o fim do mês quando cheguei ao doce aconchego de minha cozinha-americana. Saí de lá, paguei R$ 7 de estacionamento, uma barbada, posto que qualquer flanelinha cobraria de R$ 15 a R$ 20 para cuidar do meu KA completinho e sempre bem lavadinho.
Nem passei no bar daesquina. Pô, o cara tava cobrando R$ 12,50 por uma dose de Johnnie Red, sem choro. Preço de cabaré, cara! Por esse preço quero que a mulher do dono me leve pra casa. Fui direto para o meu lar, doce lar de solteiro convicto e compulsório. Casar com quem? De que sexo? Com que rabo, pô? Só pra daqui a dez, onze anos dizer que sou um barrigudo, careca, pai de filho?!? Melhor sofrer sozinho do que dever acompanhado.
Fiz um sanduíche que me custou por baixo, por baixo, uns R$ 3 pilas, tomei um café, fui para o banho rápido e sentei-me na cadeira de balanço com assento de palhinha que herdei de meu pai, velho e sério metalúrgico e, por isso mesmo, mal-sucedido que quase não morreu, coitado, porque não tinha onde cair morto.
Sintonizei o Jornal da TV. O noticiário político estava no quadro da polícia. A informação econômica do dia deu que o dólar caiu e a inflação oficial no Brasil é de 0,7%. Desliguei. Nem vi o Neymar botar a defesa do Corinthians na fila. Fui deitar.
Não dormi até agora. Já são seis horas da madrugada de um novo dia pelo horário brasileiro de inverno. Hora de enfrentar o trânsito na capital. Pelo menos não tive outro pesadelo - penso, antes de atirar o pijama no cesto de roupa suja.
MORAL DA HISTÓRIA - Se Luiz Erário da Silva escapar dessa luta em que está metido, em 2014 voto nele. Afinal, sou o Garanhão de Pelotas, como todo e qualquer brasileiro e, de vez em quando, ou sempre que é possível, até dá gosto ficar por baixo.
Levei cinco minutos exatos - que depois disso o medidor de energia dispara - enxuguei-me com uma toalha que surrupiei depois de um pernoite bem empernado de R$ 45 no Hotel Damasco Inn, ali nas bordas da Marginal do Rio Sujeira e escovei a terceira dentição com um resto do primeiro tubo de um conjunto de três dentifrícios Sorriso Branco e Franco que me custara exatos R$ 3,97 na promoção do dia nas Casas Bahia.
Cofiei os pelos pubianos - que um Garanhão tem que ter esses gestos - e fiz a barba com a quinta geração de uma lâmina amarela de um pacote de 10 unidades, adquirido no Carrefour por módicos R$ 6,35.
Matei no bar da esquina um café com leite, pão-dormido e manteiga, por suaves R$ 4,50, peguei meu possante carrinho Ford-KA completo, com um saldo pendurado de 52 prestações de R$ 622 e fui à luta.
Cheguei no escritório, uma sala de 24 metros quadrados e um vaso sanitário que me custam um aluguel de R$ 1.250, fora o condomínio e IPTU, água, luz e telefone e me prendi a fazer negócios pelo computador, um Intelbrás de 2009 financiado em 36 meses de R$ 33,50 que, felizmente, estará pago, morto e sepultado, no mês que vem.
Ao meio-dia, bateu agrura no meu estômago sensível e fui ao almoço-executivo no restaurante ali do shopping Mar de Fora. Paguei R$ 17 por quilo na balança, uma pechincha já que o custo real era de R$ 28,50 por cabeça, com direito a peixe tipo bacalhau já deslascado e tudo mais. Batata é que não faltava.
Dali fui ao médico oftalmologista. Um luxo, posto que não tenho plano de saúde, nem ligações de qualquer grau com o Sírio-Libanês e ainda acho que o SUS é para metalúrgicos de segunda e não para grandes miniempresários como eu. O prazer de dever para o Fisco só é comparável àquelas dores de dente insuportáveis.
Paguei na bucha, com cartão de crédito estourado - que vai me custar nada menos de 240% de juro por ano, até que o coloque em dia. Lá se foram R$ 200 por uma consulta que, em novembro do ano passado me custava R$ 150.
Saí enxergando a mesma coisa. Até que tenha grana para mandar aviar os óculos que já não cabem na minha velha armação redonda. A armação de R$ 190 está agora por R$ 287 à vista, ou R$ 320 no cartão, em três vezes. As lentes, Varilux ou coisa parecida, podem ser de R$ 95 para enxergar direitinho, ou então de R$ 480 para perceber o que me aparecer pela frente.
Nem voltei para o trabalho. Estava exausto. Na verdade, exaurido. Antes de chegar em casa, passei no supermercado. Sou viciado em sonhos de consumo. Namorei as prateleiras de vinho. Achei um Marquês de Riscal, meu cabernet espanhol preferido, em oferta: R$ 184 a garrafa. Peguei um Marquês de La Colina, por R$ 8,90.
Comprei pão integral, de barbada, por R$ 5,99 quando o seu valor verdadeiro seria coisa de R$ 7,20 mais ou menos. Aduzi às compras queijo-prato numa oferta de R$ 24 por quilo, quando o preço atual seria de, pelo menos, R$ 32; juntei ainda presunto gordo e sadio por inexplicáveis R$ 19 o quilo, ao invés dos tradicionais R$ 27. Queijo e presunto, aglomerados, resultaram-me num pacote de 200 gramas de sabor inigualável.
Ah sim, paguei R$ 4,80 num saco de um quilo de café Ouro Bendito que, normalmente, custaria R$ 8,90. Só vi que a validade do produto ia até apenas até o fim do mês quando cheguei ao doce aconchego de minha cozinha-americana. Saí de lá, paguei R$ 7 de estacionamento, uma barbada, posto que qualquer flanelinha cobraria de R$ 15 a R$ 20 para cuidar do meu KA completinho e sempre bem lavadinho.
Nem passei no bar daesquina. Pô, o cara tava cobrando R$ 12,50 por uma dose de Johnnie Red, sem choro. Preço de cabaré, cara! Por esse preço quero que a mulher do dono me leve pra casa. Fui direto para o meu lar, doce lar de solteiro convicto e compulsório. Casar com quem? De que sexo? Com que rabo, pô? Só pra daqui a dez, onze anos dizer que sou um barrigudo, careca, pai de filho?!? Melhor sofrer sozinho do que dever acompanhado.
Fiz um sanduíche que me custou por baixo, por baixo, uns R$ 3 pilas, tomei um café, fui para o banho rápido e sentei-me na cadeira de balanço com assento de palhinha que herdei de meu pai, velho e sério metalúrgico e, por isso mesmo, mal-sucedido que quase não morreu, coitado, porque não tinha onde cair morto.
Sintonizei o Jornal da TV. O noticiário político estava no quadro da polícia. A informação econômica do dia deu que o dólar caiu e a inflação oficial no Brasil é de 0,7%. Desliguei. Nem vi o Neymar botar a defesa do Corinthians na fila. Fui deitar.
Não dormi até agora. Já são seis horas da madrugada de um novo dia pelo horário brasileiro de inverno. Hora de enfrentar o trânsito na capital. Pelo menos não tive outro pesadelo - penso, antes de atirar o pijama no cesto de roupa suja.
MORAL DA HISTÓRIA - Se Luiz Erário da Silva escapar dessa luta em que está metido, em 2014 voto nele. Afinal, sou o Garanhão de Pelotas, como todo e qualquer brasileiro e, de vez em quando, ou sempre que é possível, até dá gosto ficar por baixo.
26/01/2012
Fairplay
Já que ninguém dizia isso, eu mesmo digo: fui um craque na modalidade futebol-da-bola-pequena. Jogava um bolão no futebol de salão. Rima, mas pode não ser verdade. Em todo caso, a minha paixão pelo esporte me dava o direito de ser magnânimo e de aceitar qualquer convite para jogar em times de segunda, de terceira e até de quinta categoria.
Jamais perdi um confronto entre casados e solteiros; nem deixei de fazer um pezinho naquelas peladas entre as equipes de rádios ou jornais e seus patrocinadores. Era um come bola. Um prostituto das quadras e ginásios. Na realidade, um apaixonado por qualquer tipo de futebol.
Naquela noite de sexta-feira, montamos o time lá da quadra sete do condomínio Las Figueras e fomos enfrentar um esquadrão do glorioso 9° Regimento de Infantaria, o Batalhão Tuiuti Futebol Clube. Na casa deles. Um ginásio bem construído e melhor conservado, como é do tamanho e feito das coisas do Exército. Afinal, quem tem mão de obra barata e diversificada como a dos recrutas, pode esbanjar serviço de limpeza e brilho. Até nos coturnos.
O jogo no primeiro tempo foi ótimo: 1x1. O nosso gol foi meu, claro. Na segunda fase faltou energia. Não, luz tinha de sobra; faltou energia para o nosso time. No meu bando de pernas-de-pau, eu corria por todos e todos não corriam por mim.
Quando vi, o placar era de 6x1 para os milicos. Louco para que o massacre chegasse ao fim pedi para bater uma falta na beira da área deles. Faltava talvez um minuto para terminar. Nos preparativos para a cobrança, levantei os olhos e dei com eles numa frase de puro fairplay e profundo espírito olímpico afixada no paredão dos fundos da quadra: "Lute, ainda falta um segundo"!
Corri para a bola. Passei por ela e... fui direto para o vestiário. Tomei meu banho, não falei com ninguém e nunca mais joguei no Las Figueras.
MORAL DA HISTÓRIA - Desgraçadamente eu sou um daqueles poucos que têm paixão por uma coisa sem querer tirar dela qualquer ensinamento. Desgraçada, ou felizmente.
Jamais perdi um confronto entre casados e solteiros; nem deixei de fazer um pezinho naquelas peladas entre as equipes de rádios ou jornais e seus patrocinadores. Era um come bola. Um prostituto das quadras e ginásios. Na realidade, um apaixonado por qualquer tipo de futebol.
Naquela noite de sexta-feira, montamos o time lá da quadra sete do condomínio Las Figueras e fomos enfrentar um esquadrão do glorioso 9° Regimento de Infantaria, o Batalhão Tuiuti Futebol Clube. Na casa deles. Um ginásio bem construído e melhor conservado, como é do tamanho e feito das coisas do Exército. Afinal, quem tem mão de obra barata e diversificada como a dos recrutas, pode esbanjar serviço de limpeza e brilho. Até nos coturnos.
O jogo no primeiro tempo foi ótimo: 1x1. O nosso gol foi meu, claro. Na segunda fase faltou energia. Não, luz tinha de sobra; faltou energia para o nosso time. No meu bando de pernas-de-pau, eu corria por todos e todos não corriam por mim.
Quando vi, o placar era de 6x1 para os milicos. Louco para que o massacre chegasse ao fim pedi para bater uma falta na beira da área deles. Faltava talvez um minuto para terminar. Nos preparativos para a cobrança, levantei os olhos e dei com eles numa frase de puro fairplay e profundo espírito olímpico afixada no paredão dos fundos da quadra: "Lute, ainda falta um segundo"!
Corri para a bola. Passei por ela e... fui direto para o vestiário. Tomei meu banho, não falei com ninguém e nunca mais joguei no Las Figueras.
MORAL DA HISTÓRIA - Desgraçadamente eu sou um daqueles poucos que têm paixão por uma coisa sem querer tirar dela qualquer ensinamento. Desgraçada, ou felizmente.
19/01/2012
Alvíçaras! Posso ser um porre!
Porra, eu até já fui um bêbado! Abstêmio, jamais. Não tem sido raro que, pelos tropeções dessa vida, eu seja um porre.
Até quando desmancho castelos de areia; até quando piso na bola; até quando sempre sou um garanhão que não tem quando, nem pra quê, nem por quê, ainda que absolutamente limpo de pruridos morais e eventuais.
Saí de um affair - alvíçaras! alvíçaras! Affair é demais! - sem quê, nem pra quê, nem por quê... Saí, porra! E dei com os burros n'água. Dei, mas não confesso. Nem a pau. Porra, nem de porre!
Tanto é que, outro dia, mandei a bondade e a humildade que habitam meu coração à planfa que lamblanfa e postei um recado definitivo à breve amada que não consigo incorporar a minha alma inquieta.
Fui duro e definitivo. Mostrei àquela que me encanta, mas a quem não me rendo nem que me entregue a um demorado e doloroso auto-flagelo com um rebenque nas minhas costas prostradas num pelego que sou cativo de sua doce e instigante figura. Mandei-lhe um recado com todas as letras que cabem no meu empedernido coração:
- Eu te esqueço todos os dias!
MORAL DA HISTÓRIA - Todo mundo, até o Garanhão de Pelotas pode ser mau que nem um pica-pau. Ou endurecer-se, sin perder la ternura. E mais até: pra mim Platão é que sabia amar.
18/01/2012
Super Mouse
Sou um internauta de respeito. Todo dia, antes que o motorista do meu Hyundai Azera, cor de prata como a lua que expressa as minhas múltiplas personalidades, viajo pela internet como um desbravador de mares nunca dantes navegados.
Sou um misto de Cristóvão Colombo, garanhão pelotense, perdido pelas belezas das índias, com Pedro Álvares Cabral, sonso e lusitano, tentando do alto de minha redundância, botar o ovo em pé.
No início da semana passada, já instalado no gabinete do imortal presidente da maior casa de tolerância nacional, joguei-me às lides de lobista explícito, não me livrei da tentação e sentei-me à frente de um dos mais de dez exemplares de high generation computers que o Pai dos Marimbondos de Fogo tem, às custas do Erário*, em sua antessala acadêmico-presidencial.
Fundilhos presos à cadeira de belo espaldar, cerca de cinco imortais minutos depois, entrei em pânico. Mostrava-se-me teimosa a tela - tinha vida própria e linguajar apropriado - teimosa e absolutamente estática.
Não atendia a qualquer comando de minhas vontades, não sinais de submissão a qualquer mísero sinal do tal comundongo informatizado que o vulgo chama de mouse. Porra, até meus netos, dominam essa técnica de comunicação hodierna!
Tentei, tentei e retentei denodadamente na movimentação do pequeno artefato que nos liga com a vida e o mundo virtual. Nada. Porra nenhuma. Nem aquela porra que usei para acudir ao talento dos filhos de meus filhos, meus netos gênios nerds do inefável mundo da informática.
Levei mais de dez imortais minutos - essa porra da proximidade com um fardão, contagia inexoravelmente - na batalha contra aquela inusitada inércia do ratinho cibernético.
Levei e... Levei! Oba, o mouse reagiu. O mouse vibrou na palma da minha mão! Parecia que criava vida, saltitava e grunhia.
Foi só então que me dei conta de que estava manusenado há dez intermináveis minutos, nada mais e nada menos do que o celular ao invés do mouse.
Bosta! Que fiasco. Não atendi a chamada. Desliguei. Coloquei o celular no bolso da camisa de linho egípcio e me senti uma múmia.
Olhei para os lados, ri de mi mesmo. Levantei-me e encerrei o expediente. Naquela manhã eu não tinha ânimo para mais nada, muito menos para uma puxada jornada de tráfico de influência.
RODAPÉ - (*) Erário, segundo nome próprio do Luiz que é também conhecido por Lula da Silva.
MORAL DA HISTÓRIA - Presta atenção na vida, cara! Com a atenção notamos as precisosidades e as colocamos em nosso acervo; com a distração deixamos cair ao solo o ouro e as pérolas como se fossem coisas triviais.
Sou um misto de Cristóvão Colombo, garanhão pelotense, perdido pelas belezas das índias, com Pedro Álvares Cabral, sonso e lusitano, tentando do alto de minha redundância, botar o ovo em pé.
No início da semana passada, já instalado no gabinete do imortal presidente da maior casa de tolerância nacional, joguei-me às lides de lobista explícito, não me livrei da tentação e sentei-me à frente de um dos mais de dez exemplares de high generation computers que o Pai dos Marimbondos de Fogo tem, às custas do Erário*, em sua antessala acadêmico-presidencial.
Fundilhos presos à cadeira de belo espaldar, cerca de cinco imortais minutos depois, entrei em pânico. Mostrava-se-me teimosa a tela - tinha vida própria e linguajar apropriado - teimosa e absolutamente estática.
Não atendia a qualquer comando de minhas vontades, não sinais de submissão a qualquer mísero sinal do tal comundongo informatizado que o vulgo chama de mouse. Porra, até meus netos, dominam essa técnica de comunicação hodierna!
Tentei, tentei e retentei denodadamente na movimentação do pequeno artefato que nos liga com a vida e o mundo virtual. Nada. Porra nenhuma. Nem aquela porra que usei para acudir ao talento dos filhos de meus filhos, meus netos gênios nerds do inefável mundo da informática.
Levei mais de dez imortais minutos - essa porra da proximidade com um fardão, contagia inexoravelmente - na batalha contra aquela inusitada inércia do ratinho cibernético.
Levei e... Levei! Oba, o mouse reagiu. O mouse vibrou na palma da minha mão! Parecia que criava vida, saltitava e grunhia.
Foi só então que me dei conta de que estava manusenado há dez intermináveis minutos, nada mais e nada menos do que o celular ao invés do mouse.
Bosta! Que fiasco. Não atendi a chamada. Desliguei. Coloquei o celular no bolso da camisa de linho egípcio e me senti uma múmia.
Olhei para os lados, ri de mi mesmo. Levantei-me e encerrei o expediente. Naquela manhã eu não tinha ânimo para mais nada, muito menos para uma puxada jornada de tráfico de influência.
RODAPÉ - (*) Erário, segundo nome próprio do Luiz que é também conhecido por Lula da Silva.
MORAL DA HISTÓRIA - Presta atenção na vida, cara! Com a atenção notamos as precisosidades e as colocamos em nosso acervo; com a distração deixamos cair ao solo o ouro e as pérolas como se fossem coisas triviais.
16/01/2012
Disfarçado de Motoqueiro
Tive meus dias de Palácio do Planalto. Nem mesmo o Garanhão de Pelotas é de ferro. Como assessor de projetos especiais da Secretaria de Comunicação daquele presidente baixinho que gostava mais do "cheirinho de cavalo do que do cheiro do povo", meus momentos de happy hour eram repartidos pelos bares dos arredores da Esplanada com o pessoal da segurança palaciana
Antes que eles tomassem o terceiro chope - hora em que se calavam para sempre sobre qualquer assunto palaciano - os arapongas até que eram bem divertidos. Contavam uma em cima da outra; poucas e boas
O Perninha Torta era um número. Boquirroto, não perdia a chance para dar bola fora. Essa do cheiro do cavalo foi uma. Estragou toda o esquema de marketing que preparavam para popularizar sua imagem.
Outra catilinária foi a daquela manhã de sábado, quando uma criança de uma escola pública da cidade-satélite de Taguatinga lhe perguntou, diante das câmeras de TV e dos microfones dos repórteres setoristas do Palácio, o que ele faria se ganhasse salário mínimo. "Metia uma bala na cabeça" - respondeu de imediato, com um sorriso, enquanto afagava o rosto da inocente criaturinha.
Dentre muitas historietas, saíam sempre algumas inconfidências de aventuras furtivas do espevitado presidente. Era um fincão de primeira. Sempre que podia, dava uma escapada para pular a cerca.
Era cuidadoso. Toda vez que saía para encontrar uma determinada e dadivosa dama da Corte, vestia-se de motoqueiro, dos pés à cabeça; macacões adequados, luvas, botas e o indefectível capacete que o protegia não só de eventuais quedas de sua pontente máquina de duas rodas, como resguardava a sua identidade.
Era assim que se livrava da curiosidade da mídia, sequiosa por deslizes presidenciais.
Nessas escapadelas de alcova, o homem cometia pecados que levavam os guarda-costas à loucura: bolas, a moto era a única no Brasil naquele tempo com 750 cilindradas; toda verde e amarela, era um espanto; ele era patrulhado, pelo percurso inteiro, por um comboio de dois Gálaxies LTD Landau presidenciais na frente e dois atrás; o fujão arrancava dos fundos do Palácio a 150 km/h rumo ao mesmo sítio, na região dos Lagos; assim que chegava ao jardim da residência dos furtivos encontros, ele descia da moto, caminhava resoluto com suas pernas arqueadas de cavaleiro republicano, rumo aos braços e abraços de mais um momento de lazer clandestino, com a cara e a coragem... De capacete embaixo do braço!
MORAL DA HISTÓRIA - A pompa e a circunstância de um disfarce oficial não esconde a fantasia de um presidente bom de cama. E, em casos de alcova, nenhum disfarce é usado para esconder aquilo que se deseja que os outros saibam.
Antes que eles tomassem o terceiro chope - hora em que se calavam para sempre sobre qualquer assunto palaciano - os arapongas até que eram bem divertidos. Contavam uma em cima da outra; poucas e boas
O Perninha Torta era um número. Boquirroto, não perdia a chance para dar bola fora. Essa do cheiro do cavalo foi uma. Estragou toda o esquema de marketing que preparavam para popularizar sua imagem.
Outra catilinária foi a daquela manhã de sábado, quando uma criança de uma escola pública da cidade-satélite de Taguatinga lhe perguntou, diante das câmeras de TV e dos microfones dos repórteres setoristas do Palácio, o que ele faria se ganhasse salário mínimo. "Metia uma bala na cabeça" - respondeu de imediato, com um sorriso, enquanto afagava o rosto da inocente criaturinha.
Dentre muitas historietas, saíam sempre algumas inconfidências de aventuras furtivas do espevitado presidente. Era um fincão de primeira. Sempre que podia, dava uma escapada para pular a cerca.
Era cuidadoso. Toda vez que saía para encontrar uma determinada e dadivosa dama da Corte, vestia-se de motoqueiro, dos pés à cabeça; macacões adequados, luvas, botas e o indefectível capacete que o protegia não só de eventuais quedas de sua pontente máquina de duas rodas, como resguardava a sua identidade.
Era assim que se livrava da curiosidade da mídia, sequiosa por deslizes presidenciais.
Nessas escapadelas de alcova, o homem cometia pecados que levavam os guarda-costas à loucura: bolas, a moto era a única no Brasil naquele tempo com 750 cilindradas; toda verde e amarela, era um espanto; ele era patrulhado, pelo percurso inteiro, por um comboio de dois Gálaxies LTD Landau presidenciais na frente e dois atrás; o fujão arrancava dos fundos do Palácio a 150 km/h rumo ao mesmo sítio, na região dos Lagos; assim que chegava ao jardim da residência dos furtivos encontros, ele descia da moto, caminhava resoluto com suas pernas arqueadas de cavaleiro republicano, rumo aos braços e abraços de mais um momento de lazer clandestino, com a cara e a coragem... De capacete embaixo do braço!
MORAL DA HISTÓRIA - A pompa e a circunstância de um disfarce oficial não esconde a fantasia de um presidente bom de cama. E, em casos de alcova, nenhum disfarce é usado para esconder aquilo que se deseja que os outros saibam.
14/01/2012
Vingança não tem fim...
Osvaldinho Langlois, mesmo quando comemorou cinquenta anos de fundação, nunca deixou de ser um guri arteiro. Foi craque de bola. Extrema esquerda por vocação. No futebol, porque na política não dava de bico e nem se colocava.
Uma postura - epa! postura é de galinha - um comportamento meio incompreensível para quem levava a vida na brincadeira. Não há nada neste planeta mais cômico e nem mais moleque do que política.
Osvaldinho tem sempre uma piada, uma tirada de humor inteligente e afiado para qualquer situação. A gente tem que tomar cuidado com ele, se não quiser pagar um mico na frente dos outros. Ou atrás - como decerto ele emendaria rápido e rasteiro.
Eu reencontrei Osvaldinho, numa tarde de verão** na praia do Laranjal, às margens da Lagoa dos Patos, a maior do mundo, desempenhando o papel de dono do cofre da padaria do Shopping Mar de Dentro. Depois da troca de flâmulas pelo tempo decorrido - coisa de três anos - desde o nosso último encontro, eu lhe fiz o pedido como cliente da casa, cheia de clientes:
- Vou levar oito cacetinhos*, um tablete de manteiga, uma Coca-Família e 10 copinhos de água mineral com gás...
- Ah, sim, Garanhão. Você quer que embrulhe, ou vai comer aqui mesmo?
A clientela riu do meu ar de surpresa. Quando mostrava ter entendido a pequena molecagem, teve tempo de me ouvir tentando sair da saia justa, fingindo que não ouvira o cutucão:
- Osvaldinho, por favor, eu vou levar também 20 dessas empadinhas.
- Ah, sim, pois não, Garanhão. Elas estão ótimas - disse solícito, com ar de vencedor
- Ótimas? Você já as provou?
- Claro, provei, estão uma beleza, Garanhão.
- Então suspende o pedido. Não como nada babujado! Não como resto de ninguém.
Paguei a conta sob os risos da mesma freguesia. Na manhã seguinte, domingo de folga para os padeiros, fomos jogar uma pelada entre casados e solteiros, no gramado praiano do Caiçara F.C. – o estádio "Comendador Mário Franco".
Osvaldinho me encheu de passes tipo rosbife - todos mal passados - só para mostrar para a turma que não jogo mais nada. Sua vingança foi malígna.
RODAPÉ - (*) - Cacetinho - Em Pelotas, pão francês é "cacetinho". Pelotense adora levá-los para casa. Tanto o francês, quanto o cacetinho.
(**) - Tarde de Verão - Lá por Pelotas, quando há mesmo uma tarde de verão, ela cai num sábado.
MORAL DA HISTÓRIA - Não é possível a ninguém vingar-se de uma molecagem sem cometer outra e mais uma e mais outra...
Uma postura - epa! postura é de galinha - um comportamento meio incompreensível para quem levava a vida na brincadeira. Não há nada neste planeta mais cômico e nem mais moleque do que política.
Osvaldinho tem sempre uma piada, uma tirada de humor inteligente e afiado para qualquer situação. A gente tem que tomar cuidado com ele, se não quiser pagar um mico na frente dos outros. Ou atrás - como decerto ele emendaria rápido e rasteiro.
Eu reencontrei Osvaldinho, numa tarde de verão** na praia do Laranjal, às margens da Lagoa dos Patos, a maior do mundo, desempenhando o papel de dono do cofre da padaria do Shopping Mar de Dentro. Depois da troca de flâmulas pelo tempo decorrido - coisa de três anos - desde o nosso último encontro, eu lhe fiz o pedido como cliente da casa, cheia de clientes:
- Vou levar oito cacetinhos*, um tablete de manteiga, uma Coca-Família e 10 copinhos de água mineral com gás...
- Ah, sim, Garanhão. Você quer que embrulhe, ou vai comer aqui mesmo?
A clientela riu do meu ar de surpresa. Quando mostrava ter entendido a pequena molecagem, teve tempo de me ouvir tentando sair da saia justa, fingindo que não ouvira o cutucão:
- Osvaldinho, por favor, eu vou levar também 20 dessas empadinhas.
- Ah, sim, pois não, Garanhão. Elas estão ótimas - disse solícito, com ar de vencedor
- Ótimas? Você já as provou?
- Claro, provei, estão uma beleza, Garanhão.
- Então suspende o pedido. Não como nada babujado! Não como resto de ninguém.
Paguei a conta sob os risos da mesma freguesia. Na manhã seguinte, domingo de folga para os padeiros, fomos jogar uma pelada entre casados e solteiros, no gramado praiano do Caiçara F.C. – o estádio "Comendador Mário Franco".
Osvaldinho me encheu de passes tipo rosbife - todos mal passados - só para mostrar para a turma que não jogo mais nada. Sua vingança foi malígna.
RODAPÉ - (*) - Cacetinho - Em Pelotas, pão francês é "cacetinho". Pelotense adora levá-los para casa. Tanto o francês, quanto o cacetinho.
(**) - Tarde de Verão - Lá por Pelotas, quando há mesmo uma tarde de verão, ela cai num sábado.
MORAL DA HISTÓRIA - Não é possível a ninguém vingar-se de uma molecagem sem cometer outra e mais uma e mais outra...
13/01/2012
O Reencontro
Fui à festa de arromba do casamento da filha de um velho companheiro de bancos escolares. O cenário escolhido foi um sítio do tamanho de uma estância, entre Canela e Gramado. Um festão.
Tinha gente que não acabava mais. Alguns velhos conhecidos, outros nem tanto e muitos absolutamente nunca vistos ou por mim imaginados.
Dentre os convivas, vislumbrei uma verdadeira lenda viva. Um colega de ginasial. Daqueles que entram na escola bem depois que a gente já capitulou às vontades da mãe e às ordens do pai. Ialtamiro, o bom e batuta Ialtamiro, pelas minhas contas, já beirava os 80 anos de idade.
Cheguei-me ao longevo amigo a quem não via fazia muito e muitos anos. Algumas décadas, na verdade. Dei-lhe um forte e caloroso abraço. Ele, diplomaticamente, correspondeu. Abraçou-me como se ainda soubesse com quem estava falando:
- Que prazer ver você novamente!
- Que alegria - respondi ao vetusto enganador.
- De que cidade você veio aqui pro casamento? - pesquisou-me, querendo caçar minha identidade.
- Vim de Pelotas, Ialtamiro.
- Ah, sim, de Pelotas... Eu gosto muito daquela cidade. Estudei lá.
- Eu sei...
- A última vez que estive lá, faz tempo, foi pro casamento de um grande amigo, o Garanhão de Pelotas.
- Pois eu também estava lá.
- Você foi ao casamento do Garanhão?
- Fui, Ialtamiro... Eu era o noivo.
- Garanhão, meu amigão!!! Por Deus Nosso Senhor, eu jamais te reconheceria...
- Entendo. Faz muito tempo...
- Não, não. É que você tá gordo, careca e parece mais velho que eu.
Fingi que não ouvi. Abracei-o com afeto e o acompanhei até à mesa de doces, bem perto do bolo. Providenciei-lhe uma taça de guaraná e fui rever outros antigos parceiros.
MORAL DA HISTÓRIA - Depois de quase uma década de décadas, a memória é um espécie de paraíso de onde fomos desterrados. Ainda mais quando alguém se chama Ialtamiro.
Tinha gente que não acabava mais. Alguns velhos conhecidos, outros nem tanto e muitos absolutamente nunca vistos ou por mim imaginados.
Dentre os convivas, vislumbrei uma verdadeira lenda viva. Um colega de ginasial. Daqueles que entram na escola bem depois que a gente já capitulou às vontades da mãe e às ordens do pai. Ialtamiro, o bom e batuta Ialtamiro, pelas minhas contas, já beirava os 80 anos de idade.
Cheguei-me ao longevo amigo a quem não via fazia muito e muitos anos. Algumas décadas, na verdade. Dei-lhe um forte e caloroso abraço. Ele, diplomaticamente, correspondeu. Abraçou-me como se ainda soubesse com quem estava falando:
- Que prazer ver você novamente!
- Que alegria - respondi ao vetusto enganador.
- De que cidade você veio aqui pro casamento? - pesquisou-me, querendo caçar minha identidade.
- Vim de Pelotas, Ialtamiro.
- Ah, sim, de Pelotas... Eu gosto muito daquela cidade. Estudei lá.
- Eu sei...
- A última vez que estive lá, faz tempo, foi pro casamento de um grande amigo, o Garanhão de Pelotas.
- Pois eu também estava lá.
- Você foi ao casamento do Garanhão?
- Fui, Ialtamiro... Eu era o noivo.
- Garanhão, meu amigão!!! Por Deus Nosso Senhor, eu jamais te reconheceria...
- Entendo. Faz muito tempo...
- Não, não. É que você tá gordo, careca e parece mais velho que eu.
Fingi que não ouvi. Abracei-o com afeto e o acompanhei até à mesa de doces, bem perto do bolo. Providenciei-lhe uma taça de guaraná e fui rever outros antigos parceiros.
MORAL DA HISTÓRIA - Depois de quase uma década de décadas, a memória é um espécie de paraíso de onde fomos desterrados. Ainda mais quando alguém se chama Ialtamiro.
12/01/2012
Punguista
Dona Mariana era para mim o que Dilma é para Luiz Erário Lula da Silva, uma governanta. A diferença é que ela era uma boa governanta. Ela cuidava de minha residência no Lago Sul com enorme eficiência. Não dormia no emprego.
Todo santo dia, ia e vinha para cumprir suas obrigações. Na minha e na sua casa. Naquela quarta-feira, cerca de cinco da tarde, dona Mariana tomou - como de hábito - o coletivo para a cidade-satélite de Samambaia.
O ônibus estava quase lotado. Achou um lugar vago ao lado de um passageiro de feições rudes. Acomodou-se sem dizer e nem receber palavra. No trajeto do Plano Piloto para a região do Entorno o carro foi ficando lotado.
Com o vaivém do ônibus, volta e meia dona Mariana levava um cutucão do parceiro de viagem. O cara era meio incômodo, meio atrevido. Dona Mariana se defendia como podia. Não queria fazer escândalos, muito menos alardear um assédio sexual. Foi aguentando.
Lá pelas tantas, desperta da modorra, ela quis saber as horas, olhou para o pulso e - surpresa! - seu relógio tinha desaparecido. Desaforo!
Não teve dúvidas, abriu cuidadosa e lentamente a bolsa, tirou uma tesoura de unha e, moto contínuo, de mão trocada para que ninguém notasse, encostou com firmeza a ponta do pequeno e agora perigoso artefato nas costelas do safardana. Entredentes bafejou no ouvido do punguista:
- Passa o relógio. Vamos, passa o relógio!
O homem tomado de medo diante da iminência de um barraco e uma reação imprevisível, entregou o relógio em silêncio e sem reclamar. Na primeira parada ele desceu, calado, cara fechada e sem olhar pra trás.
Dona Mariana, enfim, chegou ao seu destino. Desceu, entrou em casa e foi conferir a bolsa. Lá estava o relógio. Mas - porra! - não era o dela. Era um relógio de homem. Do homem que ela ameaçara. Um bom relógio, melhor que o dela.
Dona Mariana quase morreu de vergonha quando, ao colocar sua bolsa em cima da mesa da sala, deu de cara com o seu próprio relógio. O relógio que ela esquecera de colocar no pulso antes de sair pela manhã para fazer faxina na minha casa no Lago Sul.
MORAL DA HISTÓRIA - O medo e a desconfiança são os mais injustos e cruéis conselheiros das pessoas de bem.
Todo santo dia, ia e vinha para cumprir suas obrigações. Na minha e na sua casa. Naquela quarta-feira, cerca de cinco da tarde, dona Mariana tomou - como de hábito - o coletivo para a cidade-satélite de Samambaia.
O ônibus estava quase lotado. Achou um lugar vago ao lado de um passageiro de feições rudes. Acomodou-se sem dizer e nem receber palavra. No trajeto do Plano Piloto para a região do Entorno o carro foi ficando lotado.
Com o vaivém do ônibus, volta e meia dona Mariana levava um cutucão do parceiro de viagem. O cara era meio incômodo, meio atrevido. Dona Mariana se defendia como podia. Não queria fazer escândalos, muito menos alardear um assédio sexual. Foi aguentando.
Lá pelas tantas, desperta da modorra, ela quis saber as horas, olhou para o pulso e - surpresa! - seu relógio tinha desaparecido. Desaforo!
Não teve dúvidas, abriu cuidadosa e lentamente a bolsa, tirou uma tesoura de unha e, moto contínuo, de mão trocada para que ninguém notasse, encostou com firmeza a ponta do pequeno e agora perigoso artefato nas costelas do safardana. Entredentes bafejou no ouvido do punguista:
- Passa o relógio. Vamos, passa o relógio!
O homem tomado de medo diante da iminência de um barraco e uma reação imprevisível, entregou o relógio em silêncio e sem reclamar. Na primeira parada ele desceu, calado, cara fechada e sem olhar pra trás.
Dona Mariana, enfim, chegou ao seu destino. Desceu, entrou em casa e foi conferir a bolsa. Lá estava o relógio. Mas - porra! - não era o dela. Era um relógio de homem. Do homem que ela ameaçara. Um bom relógio, melhor que o dela.
Dona Mariana quase morreu de vergonha quando, ao colocar sua bolsa em cima da mesa da sala, deu de cara com o seu próprio relógio. O relógio que ela esquecera de colocar no pulso antes de sair pela manhã para fazer faxina na minha casa no Lago Sul.
MORAL DA HISTÓRIA - O medo e a desconfiança são os mais injustos e cruéis conselheiros das pessoas de bem.
11/01/2012
A Vida no Toque-Toque
Até um Garanhão como eu pode ter sua porção hipocondríaca. Pois, durante bom espaço dos meus anos, eu fui um daqueles adoecidos sisudos, de ar preocupado. Um hipocondríaco daqueles convictos, quase malucos de tão líquidos e certos.
Por isso mesmo eu era portador de uma doentia e incurável desconfiança nos diagnósticos médicos. Sempre comprovava o resultado de um consulta. Procurava pelo menos mais dois especialistas sobre os meus sintomas da vez.
Urologistas, nunca foram menos de três; clínicos gerais, de dois a quatro por qualquer indisposição; otorrinos, eram menos, só dois; neuros, endocrinos, psiquiatras se quedaram perdidos em minhas contas.
Quando me senti quarentão, desconfiei da próstata. Fui com a cara, a coragem e com tudo para o tão difamado exame de toque. Fui. E sei-lá, senti uma coisa assim diferente que me fez procurar logo outro proctologista, mesmo sem saber o resultado da primeira grande prova da farinha.
Logo lá estava eu, deixando-me imolar pelo esfíncter uma vez mais. E sem que me desse conta, cinco dias depois, eu sentia o dedo da melhor pesquisa anatômica fazendo furor no que havia de mais profundo à flor de minha pele.
Assim é que, com o maior prazer de um desconfiado, fui acumulando comprovações de laudos e mais laudos. Dali em diante, passei a perambular de mão em mão, a andar de dedo em dedo atrás da comprovação dos diagnósticos. Minha vida virou um inimaginável toque e toque.
Andar na ponta dos dedos para mim virou rotina. Gasto uma grana com tanto teste, mas levo numa boa, afinal a saúde assim me custa caro, mas compensa. Como compensa!
Tá bom, eu sei, o meu caminhar já não é o mesmo, mas a minha felicidade tem uma saúde de ferro. Outra coisa: tudo não passou disso mesmo. Um dedo por vez já tá mais que bom para essa moléstia de fundo telúrico.
MORAL DA HISTÓRIA - Para um garanhão hipocondríaco, a vida só vale a perna ser vivida quando ela é profundamente saudável.
Por isso mesmo eu era portador de uma doentia e incurável desconfiança nos diagnósticos médicos. Sempre comprovava o resultado de um consulta. Procurava pelo menos mais dois especialistas sobre os meus sintomas da vez.
Urologistas, nunca foram menos de três; clínicos gerais, de dois a quatro por qualquer indisposição; otorrinos, eram menos, só dois; neuros, endocrinos, psiquiatras se quedaram perdidos em minhas contas.
Quando me senti quarentão, desconfiei da próstata. Fui com a cara, a coragem e com tudo para o tão difamado exame de toque. Fui. E sei-lá, senti uma coisa assim diferente que me fez procurar logo outro proctologista, mesmo sem saber o resultado da primeira grande prova da farinha.
Logo lá estava eu, deixando-me imolar pelo esfíncter uma vez mais. E sem que me desse conta, cinco dias depois, eu sentia o dedo da melhor pesquisa anatômica fazendo furor no que havia de mais profundo à flor de minha pele.
Assim é que, com o maior prazer de um desconfiado, fui acumulando comprovações de laudos e mais laudos. Dali em diante, passei a perambular de mão em mão, a andar de dedo em dedo atrás da comprovação dos diagnósticos. Minha vida virou um inimaginável toque e toque.
Andar na ponta dos dedos para mim virou rotina. Gasto uma grana com tanto teste, mas levo numa boa, afinal a saúde assim me custa caro, mas compensa. Como compensa!
Tá bom, eu sei, o meu caminhar já não é o mesmo, mas a minha felicidade tem uma saúde de ferro. Outra coisa: tudo não passou disso mesmo. Um dedo por vez já tá mais que bom para essa moléstia de fundo telúrico.
MORAL DA HISTÓRIA - Para um garanhão hipocondríaco, a vida só vale a perna ser vivida quando ela é profundamente saudável.
10/01/2012
Justiça na Forma da Lei
Para não ficar em casa cofiando os pelos pubianos da minha gata loira naquela manhã de domingo, fui participar da Maratona Anticorrupção, movimento apartidário que se realizava pelo Eixão Monumental, em Brasília.
Antes que começasse a passeata/caminhada - maratona era demais para tanto cidadão de bem cívico, tão mal de forma física - um político teve a ousadia de se imiscuir no rol das pessoas. Foi alijado aos gritos e resmungos de "Fora, Agnelo! Vai te juntar com a tua turma".
Iniciada a caminhada-correria, fixei-me na performance de um cadeirante. Jovem, forte, espadaúdo, ele chegou à frente de pelo menos metade dos corredores convencionais.
O cadeirante foi para o pódio imaginário especial. A maioria dos participantes foi para o pronto-atendimento médico montado à margem da pista pelos organizadores da maratona de calças-curtas e largos sonhos de democracia.
Esperei que o atleta paraplégico recuperasse o fôlego e fui falar com ele. Conversa daqui, conversa dali fiquei sabendo que se tratava de um ex-policial "ferido no estrito cumprimento do dever". Ele foi serenamente didático ao me contar o incidente:
- Levei dois tiros nas costas durante um assalto ao ônibus que me levava pra casa.
- Você enfrentou os assaltantes?
- Negativo. Eles eram quatro. Manjaram que eu era "tira" e me executaram.
- Eles foram presos?
- Positivo, os quatro.
- Continuam presos?
- Negativo. Os meliantes morreram.
- Morreram? Simples, assim. Morreram?
- Positivo, morreram de tiro. Os malfeitores intentaram fugar do cativeiro...
- Uma fuga em massa?
- Negativo. A cada semana um deles encontrava a porta da sua cela aberta.
MORAL DA HISTÓRIA - Entre bandidos e mocinhos, vingança também é um prato que se come frio. Ou, o corporativismo continua sendo a mais forte e eficiente forma da sociedade fazer justiça.
Antes que começasse a passeata/caminhada - maratona era demais para tanto cidadão de bem cívico, tão mal de forma física - um político teve a ousadia de se imiscuir no rol das pessoas. Foi alijado aos gritos e resmungos de "Fora, Agnelo! Vai te juntar com a tua turma".
Iniciada a caminhada-correria, fixei-me na performance de um cadeirante. Jovem, forte, espadaúdo, ele chegou à frente de pelo menos metade dos corredores convencionais.
O cadeirante foi para o pódio imaginário especial. A maioria dos participantes foi para o pronto-atendimento médico montado à margem da pista pelos organizadores da maratona de calças-curtas e largos sonhos de democracia.
Esperei que o atleta paraplégico recuperasse o fôlego e fui falar com ele. Conversa daqui, conversa dali fiquei sabendo que se tratava de um ex-policial "ferido no estrito cumprimento do dever". Ele foi serenamente didático ao me contar o incidente:
- Levei dois tiros nas costas durante um assalto ao ônibus que me levava pra casa.
- Você enfrentou os assaltantes?
- Negativo. Eles eram quatro. Manjaram que eu era "tira" e me executaram.
- Eles foram presos?
- Positivo, os quatro.
- Continuam presos?
- Negativo. Os meliantes morreram.
- Morreram? Simples, assim. Morreram?
- Positivo, morreram de tiro. Os malfeitores intentaram fugar do cativeiro...
- Uma fuga em massa?
- Negativo. A cada semana um deles encontrava a porta da sua cela aberta.
MORAL DA HISTÓRIA - Entre bandidos e mocinhos, vingança também é um prato que se come frio. Ou, o corporativismo continua sendo a mais forte e eficiente forma da sociedade fazer justiça.
09/01/2012
Estoques
Resolvi ser empresário da noite. Tinha tantos escrúpulos quanto esses ministros de Estado que perdem o emprego porque não perdem tempo na hora de recolher propina.
Nunca tive pruridos pecaminosos. Tinha uma alma sem jaça. Depois de vários anos tentando os melhores negócios dos melhores ramos, cheguei à conclusão absolutamente definitiva que business is business.
Poucos dias depois que muitos já me conheciam como investidor noturno, em plena sessão vespertina de uma casa de sauna finlandesa, um parceiro do tipo que se mete na vida de todo mundo, resolveu querer saber mais a respeito das futricas que corriam a respeito de minhas recentes iniciativas notívagas.
Com ares de entendido e de grande representante das forças vivas da sociedade local, o especulador deu às suas sondagens um grave tom de sugestão:
- Ouvi dizer que o melhor negócio pra quem investe na vida noturna é montar um restaurante ou um bordel...
Falou assim como quem deplorava a simples idéia de um cidadão de bom nível social ter a ousadia de explorar a putaria. Olhava-me como quem não adimitia sequer sonhar que alguém como eu, seu antigo companheiro de colégio e futebol, pudesse encarar a vida de um cafetão. Foi por isso mesmo que lhe respondi com prazeroso desdém pela sua moral e bons costumes:
- Pois, eu montei os dois.
- Ah, os dois... E por que um restaurante e um bordel?
- É que em caso de falência, eu posso comer o estoque.
Nunca tive pruridos pecaminosos. Tinha uma alma sem jaça. Depois de vários anos tentando os melhores negócios dos melhores ramos, cheguei à conclusão absolutamente definitiva que business is business.
Poucos dias depois que muitos já me conheciam como investidor noturno, em plena sessão vespertina de uma casa de sauna finlandesa, um parceiro do tipo que se mete na vida de todo mundo, resolveu querer saber mais a respeito das futricas que corriam a respeito de minhas recentes iniciativas notívagas.
Com ares de entendido e de grande representante das forças vivas da sociedade local, o especulador deu às suas sondagens um grave tom de sugestão:
- Ouvi dizer que o melhor negócio pra quem investe na vida noturna é montar um restaurante ou um bordel...
Falou assim como quem deplorava a simples idéia de um cidadão de bom nível social ter a ousadia de explorar a putaria. Olhava-me como quem não adimitia sequer sonhar que alguém como eu, seu antigo companheiro de colégio e futebol, pudesse encarar a vida de um cafetão. Foi por isso mesmo que lhe respondi com prazeroso desdém pela sua moral e bons costumes:
- Pois, eu montei os dois.
- Ah, os dois... E por que um restaurante e um bordel?
- É que em caso de falência, eu posso comer o estoque.
MORAL DA HISTÓRIA – Um empresário da noite prevenido vale por dois e fala de boca cheia.
08/01/2012
Dedução Lógica
Eu era chefe de segurança do Palácio do Planalto. Cumpria à risca as minhas obrigações. Isso não queria dizer, de forma nenhuma, que era obrigado a gostar do presidente da República, por acaso Luiz Erário Lula da Silva.
Naquela manhã de meio rebuliço pelo estouro do escândalo do mensalão, diante da porta do elevador que leva ao terceiro andar, onde fica o gabinete presidencial, um dos seus vinte guarda-costas comentou que Lula reclamara em bardos retumbantes que tinha levado "uma facada pelas costas".
Minha alma de segurança atento e esperto deslindou logo o dilema:
- Facada pelas costas... É por isso que ele não sabe quem foi.
O elevador chegou. O presidente, acompanhado de seu motorista, dois agentes federais e um tal de Zé Dirceu, subia direto da garagem para o gabinete. Começava mais um dia de intenso trabalho pelo bem dos brasileiros e felicidade geral da nação. Luiz Erário dava mostras de que não sabia mesmo de nada.
MORAL DA HISTÓRIA - Aquele que suprime a traição no exercício de um governo, jamais terá poder algum.
Naquela manhã de meio rebuliço pelo estouro do escândalo do mensalão, diante da porta do elevador que leva ao terceiro andar, onde fica o gabinete presidencial, um dos seus vinte guarda-costas comentou que Lula reclamara em bardos retumbantes que tinha levado "uma facada pelas costas".
Minha alma de segurança atento e esperto deslindou logo o dilema:
- Facada pelas costas... É por isso que ele não sabe quem foi.
O elevador chegou. O presidente, acompanhado de seu motorista, dois agentes federais e um tal de Zé Dirceu, subia direto da garagem para o gabinete. Começava mais um dia de intenso trabalho pelo bem dos brasileiros e felicidade geral da nação. Luiz Erário dava mostras de que não sabia mesmo de nada.
MORAL DA HISTÓRIA - Aquele que suprime a traição no exercício de um governo, jamais terá poder algum.
07/01/2012
INTOLERÂNCIA
Eu estava naqueles dias. Meio menstruado da cabeça. Sem paciência fui me remoendo à medida em que, no meio da roda de aposentados e malandros em torno de nós, ele rebatia tudo que eu dizia a respeito do Brasil e do Pelotas, os dois maiores adversários do campeonato gaúcho, afora a tão desprezível quanto imbatível dupla Gre-Nal.
Sei lá que besteirada ele disse. Só sei que era mais uma. Perdi a paciência. E vituperei pra cima dele:
- Você é um descalcificado!
Foi a gota d’água. Ele escancarou um riso irônico e não perdeu a oportunidade de me corrigir uma vez mais na frente dos outros:
- Descalcificado?!?
- É descalcificado, sim!
- Tá, deu pra ti. Não vou discutir mais. Tu é uma toupeira, Garanhão... Não é descalcificado. Tu quis dizer desclassificado. Des-clas-si-fi-ca-do!
- Toupeira é quem chama. Tu é descalcificado, sim! Tua mulher te mete guampa há anos e até hoje não nasceu chifre nessa tua cabeça!
A roda se desfez na mesma hora. Ele nunca mais veio me encher o saco, quando me encontrava pelas ruas de Pelotas, por mais sozinho que andasse e mais quisesse bater papo com alguém.
MORAL DA HISTÓRIA – Ainda que todo o progresso esteja baseado na paciência, toda a sociedade se revela na intolerância.
06/01/2012
O Perneta
Pois estávamos eu e um velho parceiro de mesas de bar falando dessas coisas, quando ele empurrou com a mão direita a sua tulipa de chope para os arredores da minha e pousou a mão esquerda sobre meu braço, num movimento típico de quem quer fazer uma confidência.
Olhou para os lados, como quem procurasse uma dessas assombrações que, à miúde, saem dos sanitários dos restaurantes e, baixando a voz fez de meu ouvido esquerdo um pequeno estande, uma espécie de cubículo igual aqueles confessionários de igrejas católicas a dar com um pau:
- Garanhão, ando comendo a Marininha...
- A mulher do Milton Capenga?
- Shhh... Ela. Ela mesma.
- E daí, cara, qual é o problema?
- Daí que ele anda pra lá de desconfiado. Tenho medo que numa dessas, ele me pegue em flagrante.
- Grande coisa. O cara é manco. Ele é perneta, você sai correndo...
- E se ele for atleta paraolímpico?!?
MORAL DA HISTÓRIA – Se um lancezinho patife desses tem moral é aquela batida verdade popular: Quem tem... Tem medo.- A mulher do Milton Capenga?
- Shhh... Ela. Ela mesma.
- E daí, cara, qual é o problema?
- Daí que ele anda pra lá de desconfiado. Tenho medo que numa dessas, ele me pegue em flagrante.
- Grande coisa. O cara é manco. Ele é perneta, você sai correndo...
- E se ele for atleta paraolímpico?!?
NEURASTÊNICO
Quando eu me atacava das lombrigas, quando me dava na telha, ninguém era capaz de ser mais intragável do que eu.
Que maus bofes! Era como se eu tivesse brigado com o cara que inventou o circo, ou com o autor do carnaval, ou aquele que descobriu a alegria. Eu reclamava de tudo, de todos; por tudo, por nada. Era quando eu endurecia e perdia a ternura.
E nem precisava de motivo para ficar neurastênico. Bastava, por exemplo, não ter dinheiro no bolso. Pronto, lá estava eu de bronca com os deuses e todo mundo. Vejam só o tamanho da minha neurastenia: ficar irritado por falta de grana... Isso lá é motivo de irritação para um brasileiro que se preza? Porra, dinheiro é bosta! Qualquer ladrão tem.
Mas sei lá, eu me encanzinava, chutava o balde, a vaca e o pau da barraca só porque a mão, às vezes, era maior que o bolso. Besteira. Dinheiro é coisa de político. Pessoas nem sabem o que é isso.
Foi assim que um dia – desempregado e deixando a vida me rolar - me irritei e resolvi ser patrão de mim mesmo. Me empreguei a fundo e montei um daqueles trailers de hot dog, cheio de bossas americanizadas, posto que se assim não o fossem se chamariam reboques de cachorro-quente. Não mais abrasileirados que isso.
Irritado por não ter dinheiro, tomei uma graninha emprestada num desses bancos de intermediação de negócios de ocasião e investi na idéia de que todo mundo é chegado num lanche de beira de calçada.
Irritado pela humilhação de me endividar para trabalhar, avisei meia-cidade que no próximo fim de semana eu e minha banca de fast food estaríamos na batalha, ali na esquina da praça central.
Dito isto, dito e feito. Fui com tudo. Não foi ninguém.
- Uma bosta, mãe! Tô aqui parado, sozinho; sem nada pra fazer... Uma bosta!
Atendi ao apelo de seu condoído coração materno para que eu fosse descansar um pouco “que amanhã é outro dia”. Fui. Dormi irritado. Acordei e fui à luta- que “não podemos se entregar pros home, de jeito nenhum, amigo e companheiro”.
Por volta de sete, sete e pouco da manhã de sábado reabri aquela espécie de gazebo de inspiração ianque, santuário moderno “dos melhores e mais baratos lanches da praça”.
Lá pelas dez da noite, o telefone tilintou em replay ao que sucedera no dia da malfadada estréia. Atendi:
- Pai?
- É. É o seu pai, meu filho. Como tá indo o negócio aí?..
- Uma bosta, pai! Isso aqui tá uma bosta!
- Não apareceu ninguém, Garanhão?
- Tá cheio de gente, pai. Uma bosta, não paro de trabalhar desde manhãzinha.
- Então tá bom, né filho?
- Bom, uma bosta! Amanhã mesmo vou passar esse negócio adiante...
- Mas, meu filho...
- Pai, se eu não passar adiante, fecho essa bosta pra sempre. Não sou burro nem nada pra trabalhar desse jeito!
MORAL DA HISTÓRIA – Os outros vícios empurram o ânimo; a irritação os atira para longe.
Que maus bofes! Era como se eu tivesse brigado com o cara que inventou o circo, ou com o autor do carnaval, ou aquele que descobriu a alegria. Eu reclamava de tudo, de todos; por tudo, por nada. Era quando eu endurecia e perdia a ternura.
E nem precisava de motivo para ficar neurastênico. Bastava, por exemplo, não ter dinheiro no bolso. Pronto, lá estava eu de bronca com os deuses e todo mundo. Vejam só o tamanho da minha neurastenia: ficar irritado por falta de grana... Isso lá é motivo de irritação para um brasileiro que se preza? Porra, dinheiro é bosta! Qualquer ladrão tem.
Mas sei lá, eu me encanzinava, chutava o balde, a vaca e o pau da barraca só porque a mão, às vezes, era maior que o bolso. Besteira. Dinheiro é coisa de político. Pessoas nem sabem o que é isso.
Sabe duma? Mais que falta de dinheiro só duas coisas me estragavam o fígado, me deixavam doente: uma era estar sem trabalho, outra era estar trabalhando. Mas, como disse um santo fanático ao ver lá de cima a Terra girar: - O mundo é uma bola.
Pois não é que é? E rola.Foi assim que um dia – desempregado e deixando a vida me rolar - me irritei e resolvi ser patrão de mim mesmo. Me empreguei a fundo e montei um daqueles trailers de hot dog, cheio de bossas americanizadas, posto que se assim não o fossem se chamariam reboques de cachorro-quente. Não mais abrasileirados que isso.
Irritado por não ter dinheiro, tomei uma graninha emprestada num desses bancos de intermediação de negócios de ocasião e investi na idéia de que todo mundo é chegado num lanche de beira de calçada.
Irritado pela humilhação de me endividar para trabalhar, avisei meia-cidade que no próximo fim de semana eu e minha banca de fast food estaríamos na batalha, ali na esquina da praça central.
Dito isto, dito e feito. Fui com tudo. Não foi ninguém.
Já noite alta, o telefone tilintou dentro do trailer. Era minha mãe querida:
- Garanhão, meu filho, como foi a estréia. O movimento foi bom?- Uma bosta, mãe! Tô aqui parado, sozinho; sem nada pra fazer... Uma bosta!
Atendi ao apelo de seu condoído coração materno para que eu fosse descansar um pouco “que amanhã é outro dia”. Fui. Dormi irritado. Acordei e fui à luta- que “não podemos se entregar pros home, de jeito nenhum, amigo e companheiro”.
Por volta de sete, sete e pouco da manhã de sábado reabri aquela espécie de gazebo de inspiração ianque, santuário moderno “dos melhores e mais baratos lanches da praça”.
Lá pelas dez da noite, o telefone tilintou em replay ao que sucedera no dia da malfadada estréia. Atendi:
- Pai?
- É. É o seu pai, meu filho. Como tá indo o negócio aí?..
- Uma bosta, pai! Isso aqui tá uma bosta!
- Não apareceu ninguém, Garanhão?
- Tá cheio de gente, pai. Uma bosta, não paro de trabalhar desde manhãzinha.
- Então tá bom, né filho?
- Bom, uma bosta! Amanhã mesmo vou passar esse negócio adiante...
- Mas, meu filho...
- Pai, se eu não passar adiante, fecho essa bosta pra sempre. Não sou burro nem nada pra trabalhar desse jeito!
MORAL DA HISTÓRIA – Os outros vícios empurram o ânimo; a irritação os atira para longe.
05/01/2012
Nomeação
Como consultor republicano de mídias persecutórias a governos que praticam a famigerada “estratégia de coalizão pela governabilidade”, não perco a menor chance de patrulhar esses focos de domínio popular que integram o plano de poder dos seguidores de Luiz Erário Lula da Silva e suas criaturas.
A estrutura estatal que forma a máquina governamental está minada por terceirizações. Carteirinha de partido aliado vale mais que qualquer diploma. Concurso é ferramenta do passado.
Cargo se preenche com cabo-eleitoral e apaniguados em geral. Ninguém precisa saber nada para ser nomeado para tudo.
Era um dia de palanque e o prefeito da cidade, por acaso do PT – o prefeito e a cidade – entregava medalhas de grande mérito a figuras ilustres da sua base aliada. Foi o justo momento para nomear Secretária Municipal de Ensino, uma professora primária, daquelas feitas nas coxas, sem graduação e sem instrução.
Pertinho daquele palco iluminado, eu pude escutar o rápido diálogo entre a professora e o politicóide. Percebi também o murmúrio de surpresa e indignação que a abrupta nomeação causara na turma do gargarejo.
Constrangida pela honraria, a mestra de ocasião, surpresa e acanhada sussurrou sincera para o prefeito:
- Prefeito, eu não tenho nenhum requisito que me faça merecer este cargo.
O raposão político, sorriu, deu-lhe um tapinha nas costas e, impassível e solene, iniciou um breve discurso para a nova secretária municipal:
- A professora, na realidade, está fora das exigências corriqueiras para o cargo que vai ocupar... mas ela tem muito mais qualidades que o cargo exige.
Assunto encerrado. Indicação consagrada. Nunca na história daquela cidade, a carteirinha partidária tinha valido tão mais do que um diploma de magistério.
MORAL DA HISTÓRIA – Não há quem resista a um carteiraço numa democracia em que é o voto é mais que um direito, uma obrigação.
Vitupério
Sempre gostei de mesas de bar. Dali saem coisas assim de repente que qualquer divã levaria de dez a quinze sessões para fazer brotar.
Eu sorvia minha vodca finlandesa com pedaços de laranja na casca, enquanto lia o jornal do dia e escutava o papo de política que dois velhos amigos pinguços exercitavam, naquela manhã já quase meio-dia.
Em dado momento, os ânimos se exaltaram. E os dois companheiros cientificamente álcoolpolitizados perderam as estribeiras e passaram a uma audível troca de gentilezas. O mais agressivo exclamava; o outro era duro també, porém mais reticente:
- Você é um imbecil!
- E você, um idiota...
- Pulha!
- Biltre...
- Calhorda!
- Papalvo...
- Mequetrefe!
Porra, mequetrefe?!? Aí lembrou petismo. O reticente, inspirou-se e diante daquela ofensa, não admitiu a pecha de vagabundo, tomou fôlego e despejou em cascata para acabar com o duelo verbal:
- Zé Dirceu! Delúbio! Lula!!!
Deu as costas e foi para o lado de lá do balcão falar de praia, churrasco, festas de fim de ano, numa roda mais calma e serena de companheiros de birita. Seu olhar revelava a empáfia dos vencedores. Mesmo que o duelo fosse só um vitupério
MORAL DA HISTÓRIA - Até mesmo entre dois amigos de copo, uma mesa de bar tem limites para as coisas do mundo politizado.
Eu sorvia minha vodca finlandesa com pedaços de laranja na casca, enquanto lia o jornal do dia e escutava o papo de política que dois velhos amigos pinguços exercitavam, naquela manhã já quase meio-dia.
Em dado momento, os ânimos se exaltaram. E os dois companheiros cientificamente álcoolpolitizados perderam as estribeiras e passaram a uma audível troca de gentilezas. O mais agressivo exclamava; o outro era duro també, porém mais reticente:
- Você é um imbecil!
- E você, um idiota...
- Pulha!
- Biltre...
- Calhorda!
- Papalvo...
- Mequetrefe!
Porra, mequetrefe?!? Aí lembrou petismo. O reticente, inspirou-se e diante daquela ofensa, não admitiu a pecha de vagabundo, tomou fôlego e despejou em cascata para acabar com o duelo verbal:
- Zé Dirceu! Delúbio! Lula!!!
Deu as costas e foi para o lado de lá do balcão falar de praia, churrasco, festas de fim de ano, numa roda mais calma e serena de companheiros de birita. Seu olhar revelava a empáfia dos vencedores. Mesmo que o duelo fosse só um vitupério
MORAL DA HISTÓRIA - Até mesmo entre dois amigos de copo, uma mesa de bar tem limites para as coisas do mundo politizado.
04/01/2012
Premonição
Por capricho do destino, estavam naquele mesmo vôo da Transbrasil de Brasília para Porto Alegre, com escala em São Paulo, Zé Dirceu, Nelson Jobim e Pedro Simon. A bem da verdade, diga-se que cada um deles entrou por seu turno e cada qual foi se encontrando com os outros pelo corredor da aeronave.
O mesmo corredor de passageiros comuns, por onde eu me acomodava com Silvinha, minha noiva de weekends nos Pampas. Embora com larga milhagem e velha macaquice em viagens aéreas, nunca deixei de sentir aquele certo friozinho no estômago a cada decolagem.
Muito mais perspicaz do que supersticioso, ronronei para a minha gatinha ruiva, já dona de seu assento ao lado da janela:
- É muito político para um só avião... Não deve ser a vez de todos deles baterem as botas.
- É pouco provável – filosofou Silvinha – esse vôo é seguro.
Eu já estava me aprumando para sentar-me a seu lado, quando um arrepio de premonição me cutucou a imaginação:
- Mas e se for a vez do Piloto?!?
Saí do avião com Silvinha e fui refazer o check-in. Viajamos menos de duas horas depois, pela Varig. Voo direto, sem baldeação em Congonhas. Chegamos a Porto Alegre na mesma hora em que chegaríamos pela Transbrasil.
Do saguão do aeroporto Salgado Filho, olhamos para o campo de pouso. Carros de bombeiro, ambulâncias e um grupo de paramédicos se movimentavam na cabeceira e às marginais da pista, voltados com uma enorme expectativa para o céu de brigadeiro do Rio Grande do Sul.
Um Boeing-737 com o prefixo e as cores da Transbrasil descia em velocidade bem acima do que ordenam os manuais para realizar o que seria uma aterrissagem de procedimento normal.
MORAL DA HISTÓRIA – A presunção de saber o futuro é uma espécie de rebeldia contra os deuses e uma competência louca que se transforma em prudência.
O mesmo corredor de passageiros comuns, por onde eu me acomodava com Silvinha, minha noiva de weekends nos Pampas. Embora com larga milhagem e velha macaquice em viagens aéreas, nunca deixei de sentir aquele certo friozinho no estômago a cada decolagem.
Muito mais perspicaz do que supersticioso, ronronei para a minha gatinha ruiva, já dona de seu assento ao lado da janela:
- É muito político para um só avião... Não deve ser a vez de todos deles baterem as botas.
- É pouco provável – filosofou Silvinha – esse vôo é seguro.
Eu já estava me aprumando para sentar-me a seu lado, quando um arrepio de premonição me cutucou a imaginação:
- Mas e se for a vez do Piloto?!?
Saí do avião com Silvinha e fui refazer o check-in. Viajamos menos de duas horas depois, pela Varig. Voo direto, sem baldeação em Congonhas. Chegamos a Porto Alegre na mesma hora em que chegaríamos pela Transbrasil.
Do saguão do aeroporto Salgado Filho, olhamos para o campo de pouso. Carros de bombeiro, ambulâncias e um grupo de paramédicos se movimentavam na cabeceira e às marginais da pista, voltados com uma enorme expectativa para o céu de brigadeiro do Rio Grande do Sul.
Um Boeing-737 com o prefixo e as cores da Transbrasil descia em velocidade bem acima do que ordenam os manuais para realizar o que seria uma aterrissagem de procedimento normal.
MORAL DA HISTÓRIA – A presunção de saber o futuro é uma espécie de rebeldia contra os deuses e uma competência louca que se transforma em prudência.
Alcoólatra
Aquele meu vizinho não podia beber. Toda vez que tomava um pileque ficava, digamos, dadivoso. Concedia. Principalmente para jovens e robustos mancebos.
Sua sina começou nas noites de sábado. No domingo remordia a ressaca desabafando ardilosamente para os amigos e toda a vizinhança:
- Tomei um porre de matar, ontem. Nem sei o que aconteceu comigo...
A cena se repetia todo fim de semana. Na segunda-feira era sempre a mesma ladainha:
- Sei lá o que foi que eu fiz... Caí de bêbado sábado à noite.
Com enorme rapidez os porres passaram a acontecer às terças e quintas-feiras também. E logo se sucediam às sextas e domingos, fechando a semana.
Um dia, ele veio me falar de suas contínuas crises de amnésia:
- Pô Garanhão, não sei o que se passa comigo...
- Mas, eu sei. Você virou alcoólatra!
MORAL DA HISTÓRIA – É prudente quando a emenda sai pior que o soneto, que a gente a remende, caso contrário então que a gente a dissimule.
Sua sina começou nas noites de sábado. No domingo remordia a ressaca desabafando ardilosamente para os amigos e toda a vizinhança:
- Tomei um porre de matar, ontem. Nem sei o que aconteceu comigo...
A cena se repetia todo fim de semana. Na segunda-feira era sempre a mesma ladainha:
- Sei lá o que foi que eu fiz... Caí de bêbado sábado à noite.
Com enorme rapidez os porres passaram a acontecer às terças e quintas-feiras também. E logo se sucediam às sextas e domingos, fechando a semana.
Um dia, ele veio me falar de suas contínuas crises de amnésia:
- Pô Garanhão, não sei o que se passa comigo...
- Mas, eu sei. Você virou alcoólatra!
MORAL DA HISTÓRIA – É prudente quando a emenda sai pior que o soneto, que a gente a remende, caso contrário então que a gente a dissimule.
Alfajores no ar
Agente secreto do Departamento Internacional de Combate a Presidentes Analfabetos (DiCopa), eu viajava disfarçado de turista incidental rumo a Amsterdã. A meu lado, numa estrinicada poltrona de classe executiva, uma lourinha estagiária de jornalismo esportivo curtia o seu primeiro voo internacional.
Embarcáramos - cada um a seu modo e seu lugar - em Guarulhos, num voo da carcomida Alitália. Coube-lhe o lugar a meu lado. Que bom, foi agraciada com a janela.
Ao natural e com o espírito aguçado dos espiões internacionais, fiquei sabendo assim como quem não quer nada, que a garota viajava para cobrir um Mundial de Hipismo, em Heindhoven, na Holanda.
Comme d'habitude em aviões de carreira, reclinei-me para encerrar o papo fingindo que adormecia - mantendo-a, no entanto e de soslaio, com um olho no padre e outro na missa, como faz bem aos que trabalham em sigilo.
Concluídos os procedimentos para decolagem, as aeromoças já circulavam lépidas e faceiras pelos corredores da aeronave. Distribuíam jornais, revistas, leituras de bordo e uma coisinha lá que outra: mantas térmicas, travesseirinhos e agradinhos assim.
Dentre tantos mimos, a jovem estagiária de primeira viagem ganhou o que identificou logo como dois minúsculos alfajores. Retirou-os da embalagem de papel celofane e prontamente e sem cerimônia colocou-os na boca.
Na primeira mordida sentiu que precisava ter estômago para engolir aqueles achocolatados holandeses. Não conseguiu digerir aquilo.
Disfarçadamente retirou os alfajores da boca. Sem se deixar notar, examinou-os atentamente. Corou. Dissimulada, guardou-os no bolso da jaqueta de reportagem que estava estreando.
Só depois de meia hora de voo é que voltou a usá-los. Aí, sim, de maneira correta. Colocou um em cada lado de sua linda cabecinha, no lugar para o qual aqueles pequenos artefatos tinham sido criados com a moderna tecnologia que os fones de ouvido ostentam nessas linhas aéreas internacionais. Seu sabor era péssimo, mas para ouvir aqueles alfajores eram ótimos.
MORAL DA HISTÓRIA - Em qualquer ocasião, mesmo sendo uma loirinha estagiária de jornalismo, todo apressado come cru.
Embarcáramos - cada um a seu modo e seu lugar - em Guarulhos, num voo da carcomida Alitália. Coube-lhe o lugar a meu lado. Que bom, foi agraciada com a janela.
Ao natural e com o espírito aguçado dos espiões internacionais, fiquei sabendo assim como quem não quer nada, que a garota viajava para cobrir um Mundial de Hipismo, em Heindhoven, na Holanda.
Comme d'habitude em aviões de carreira, reclinei-me para encerrar o papo fingindo que adormecia - mantendo-a, no entanto e de soslaio, com um olho no padre e outro na missa, como faz bem aos que trabalham em sigilo.
Concluídos os procedimentos para decolagem, as aeromoças já circulavam lépidas e faceiras pelos corredores da aeronave. Distribuíam jornais, revistas, leituras de bordo e uma coisinha lá que outra: mantas térmicas, travesseirinhos e agradinhos assim.
Dentre tantos mimos, a jovem estagiária de primeira viagem ganhou o que identificou logo como dois minúsculos alfajores. Retirou-os da embalagem de papel celofane e prontamente e sem cerimônia colocou-os na boca.
Na primeira mordida sentiu que precisava ter estômago para engolir aqueles achocolatados holandeses. Não conseguiu digerir aquilo.
Disfarçadamente retirou os alfajores da boca. Sem se deixar notar, examinou-os atentamente. Corou. Dissimulada, guardou-os no bolso da jaqueta de reportagem que estava estreando.
Só depois de meia hora de voo é que voltou a usá-los. Aí, sim, de maneira correta. Colocou um em cada lado de sua linda cabecinha, no lugar para o qual aqueles pequenos artefatos tinham sido criados com a moderna tecnologia que os fones de ouvido ostentam nessas linhas aéreas internacionais. Seu sabor era péssimo, mas para ouvir aqueles alfajores eram ótimos.
MORAL DA HISTÓRIA - Em qualquer ocasião, mesmo sendo uma loirinha estagiária de jornalismo, todo apressado come cru.
03/01/2012
Eu, O Detetive
Eu iniciava minha vidinha de repórter. Na verdade, repórter, repórter mesmo eu nunca fui. Perguntava por perguntar, nunca furunguei as fontes. Sempre fui mais de salas de redação, hoje virtuais e sonoplasticamente menos poluídas.
E, porque começava e tinha jeito de foca, fui escalado para fazer um plantão policial como repórter da sucursal pelotense do tablóide Zero Hora. Fiz. Foi o único de minha carreira pelos caminhos da notícia.
No meio da noite pegaram um suspeito. Submeteram-no a uma sessão de toma lá, toma de novo, sem nenhum dá cá. Eu saí às carreiras. Mal deixei o recinto da pauleira e granjeei a antipatia da soldadesca. Nunca mais fiz polícia.
Não fiz, como repórter. Mas o crime e o castigo me fascinavam. Na faculdade de Direito fui colega de muitos agentes policiais. Botei na cabeça que tinha pendores detetivescos. Encasquetei que era um bom detetive. Desses, tipo Irving Le Roy, Sherlock Holmes, Al Wheeler – feras de almanaques policiais.
Deu-se então um crime escabroso na região. Um casal foi enterrado nas dunas do Cassino, praia de Rio Grande, cidade que é fim do mapa dos gaúchos. A polícia já não sabia o que fazer para desvendar o hediondo assassinato.
Ninguém imaginava quem poderia ser o criminoso. Pronto, um mistério de verdade para aguçar minhas aptidões de investigador. Não tive dúvidas, logo me comprometi a colaborar com as investigações policiais. De caderninho na mão, cachimbo na boca e até uma estapafúrdia luneta fui à luta.
Daí a uma semana, telefonei para a delegacia e avisei que estava na casa do assassino. Dei o endereço e fiquei à espera. Os policiais ficaram de queixo caído quando o bandido, meio no porre, se entregou sem qualquer resistência.
Era o Vicente Beleza, um cara conhecido dos Boletins de Ocorrência. Viciado em carteado, corrida de cavalos e bilhar, ele vivia aplicando pequenos golpes. Escondia coringa nas mangas, jogava no bicho, apostava em pules viciadas.
Mas ninguém diria que ele seria capaz de matar alguém. Muito menos um casal. Muito menos enterrá-los nas dunas do Cassino. Muito menos isso.
A repercussão foi um estouro. Deu capa de jornalões, de jornais locais e também dos dois tablóides de Porto Alegre. Deu mídia de montão. Rádios, TVs, revistas. Minha carreira de detetive estava definitivamente consolidada.
Quando os holofotes da mídia me deram o devido descanso, fui jogar sinuca com os parceiros de sempre no Bataclã – casa de jogatina que reunia a nata e a reborréia da cidade.
Noite altíssima, fui pagar a sopa da madrugada no Restaurante Gago, refúgio e sindicato noturno dos sócios das mesmas dores do mundo. Era o meu prêmio de consolação ao Sargento Morcilha, meu pato nas mesas de pano verde e caçapas recheadas pelo soldo do meu parceiro, péssimo jogador de snooker.
Ele, como todo mundo – de repórteres a leitores; de inspetores a delegados – queria saber que pista, que indício, que evidência eu tinha seguido para elucidar o crime e chegar ao assassino. Com pena por ter depenado uma vez mais o meu freguês de caderno, eu lhe matei a curiosidade.
- Vou te dizer, Morcilha. Mas come em tranca.
- Sou um túmulo, Garanhão.
- Olha, Morcilha, isso é segredo profissional.
- Juro por Deus e uma batata frita que o assunto morre aqui. Pra sempre, juro.
- Foi barbada. Eu tava aqui no Gago, naquela noite. Aí, o Beleza se chegou e me filou uma birita. Tomou todas. Então se embebedou e deu o serviço.
- Como assim, deu o serviço assim, na maior?
- Ele me disse que tinha sido ele. Que andava comendo a mulher do cara. O cara descobriu. E ele, de medo, matou o corno e depois apagou a mulher.
- Fácil. Fácil...
Morcilha olhou para mim e sentindo no meu olhar o perigo que a inconfidência representava agora para ele, logo se apressou a me tranqüilizar:
- Fácil, Garanhão. Mas eu já me esqueci.
Depois desse caso deixei a vida de detetive particular. Fui ser e fazer o que mais gosto de ser e fazer na vida... Descubra. A gente sempre deixa uma pista.
MORAL DA HISTÓRIA – Ninguém é tão apegado a um segredo quanto aquele que não tem intenção de guardá-lo.
E, porque começava e tinha jeito de foca, fui escalado para fazer um plantão policial como repórter da sucursal pelotense do tablóide Zero Hora. Fiz. Foi o único de minha carreira pelos caminhos da notícia.
No meio da noite pegaram um suspeito. Submeteram-no a uma sessão de toma lá, toma de novo, sem nenhum dá cá. Eu saí às carreiras. Mal deixei o recinto da pauleira e granjeei a antipatia da soldadesca. Nunca mais fiz polícia.
Não fiz, como repórter. Mas o crime e o castigo me fascinavam. Na faculdade de Direito fui colega de muitos agentes policiais. Botei na cabeça que tinha pendores detetivescos. Encasquetei que era um bom detetive. Desses, tipo Irving Le Roy, Sherlock Holmes, Al Wheeler – feras de almanaques policiais.
Deu-se então um crime escabroso na região. Um casal foi enterrado nas dunas do Cassino, praia de Rio Grande, cidade que é fim do mapa dos gaúchos. A polícia já não sabia o que fazer para desvendar o hediondo assassinato.
Ninguém imaginava quem poderia ser o criminoso. Pronto, um mistério de verdade para aguçar minhas aptidões de investigador. Não tive dúvidas, logo me comprometi a colaborar com as investigações policiais. De caderninho na mão, cachimbo na boca e até uma estapafúrdia luneta fui à luta.
Daí a uma semana, telefonei para a delegacia e avisei que estava na casa do assassino. Dei o endereço e fiquei à espera. Os policiais ficaram de queixo caído quando o bandido, meio no porre, se entregou sem qualquer resistência.
Era o Vicente Beleza, um cara conhecido dos Boletins de Ocorrência. Viciado em carteado, corrida de cavalos e bilhar, ele vivia aplicando pequenos golpes. Escondia coringa nas mangas, jogava no bicho, apostava em pules viciadas.
Mas ninguém diria que ele seria capaz de matar alguém. Muito menos um casal. Muito menos enterrá-los nas dunas do Cassino. Muito menos isso.
A repercussão foi um estouro. Deu capa de jornalões, de jornais locais e também dos dois tablóides de Porto Alegre. Deu mídia de montão. Rádios, TVs, revistas. Minha carreira de detetive estava definitivamente consolidada.
Quando os holofotes da mídia me deram o devido descanso, fui jogar sinuca com os parceiros de sempre no Bataclã – casa de jogatina que reunia a nata e a reborréia da cidade.
Noite altíssima, fui pagar a sopa da madrugada no Restaurante Gago, refúgio e sindicato noturno dos sócios das mesmas dores do mundo. Era o meu prêmio de consolação ao Sargento Morcilha, meu pato nas mesas de pano verde e caçapas recheadas pelo soldo do meu parceiro, péssimo jogador de snooker.
Ele, como todo mundo – de repórteres a leitores; de inspetores a delegados – queria saber que pista, que indício, que evidência eu tinha seguido para elucidar o crime e chegar ao assassino. Com pena por ter depenado uma vez mais o meu freguês de caderno, eu lhe matei a curiosidade.
- Vou te dizer, Morcilha. Mas come em tranca.
- Sou um túmulo, Garanhão.
- Olha, Morcilha, isso é segredo profissional.
- Juro por Deus e uma batata frita que o assunto morre aqui. Pra sempre, juro.
- Foi barbada. Eu tava aqui no Gago, naquela noite. Aí, o Beleza se chegou e me filou uma birita. Tomou todas. Então se embebedou e deu o serviço.
- Como assim, deu o serviço assim, na maior?
- Ele me disse que tinha sido ele. Que andava comendo a mulher do cara. O cara descobriu. E ele, de medo, matou o corno e depois apagou a mulher.
- Fácil. Fácil...
Morcilha olhou para mim e sentindo no meu olhar o perigo que a inconfidência representava agora para ele, logo se apressou a me tranqüilizar:
- Fácil, Garanhão. Mas eu já me esqueci.
Depois desse caso deixei a vida de detetive particular. Fui ser e fazer o que mais gosto de ser e fazer na vida... Descubra. A gente sempre deixa uma pista.
MORAL DA HISTÓRIA – Ninguém é tão apegado a um segredo quanto aquele que não tem intenção de guardá-lo.
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